Do dia que eu cortei as asas que me impediam de voar...

31.05.2019

 

Eu não era contra cirurgia plástica, apenas não cogitava a possibilidade de realizar alguma. Primeiro porque tenho alergia a muitos medicamentos, incluindo os tradicionais remédios para dor e anti-inflamatórios, sem os quais um pós-operatório pode ser bemmm tenso... (comprovado pela minha cesárea!) 
Mas tinha mais coisa além disso: aqueles paradigmas que a gente vai acumulando ao longo da vida, e que vai limitando as nossas ações, condicionamentos que nós mesmos colocamos (ás vezes com ajudinha dos outros) em nossa possibilidade de ser feliz... Sabe aquela voz que diz, lá no fundo: “poderia ser pior, agradeça”?! Poxa... isso não é gratidão, é medo! E quando as decisões de baseiam no medo, apesar da “gratidão”, fica aquele incômodo... Incômodo de uma vida! Eu tinha um incômodo de uma vida... 
Desde que eu me entendo por gente, ouvi lá em casa, que quando nasci eu só tinha cabelo... e orelha! Claro, tudo isso me foi repetido durante toda uma vida, naquele tom de brincadeira como é comum de acontecer em (quase?!) toda família. E nessas brincadeiras “despretensiosas”, o corpo que era só corpo, vira transtorno, vira trauma, vira limitação! Enormes, gigantescas orelhas de abano, que me faziam sentir quase como o Dumbo, só que bem menos especial... as minhas não me permitiam voar!
Nem voar... nem um monte de coisa! Recentemente, descobri que grande parte da minha resistência em fazer exercício vinham do pânico de expor minhas orelhas! Fiz balé... mas como me concentrar com aquele coque deixando as gigantes orelhas a mostra? Piscina!? Quando era natação ainda dava para colocar para dentro da touca, mas quando num era, o que fazer com o super constrangimento de orelhas que saltavam para fora do cabelo molhado!? Prender o cabelo? De jeito nenhum! 
A foto aqui desse post é um dos poucos registros no qual as orelhas aparecem... Elas passaram a virar um segredo, escondidas, bem dentro de todo o abençoado cabelo! 
E eu dizia para mim mesma: são apenas orelhas...faz parte da história do seu corpo... sua audição é ótima... tem coisa pior! 
Até que tive a oportunidade de olhar bem pra elas, mas mais do que isso, olhar bem pra mim e reconhecer que eu não as queria mais!
Sim, houve luta interna no meu ser, crítico, sobre o processo social de padronização de corpos, sobre correr riscos desnecessários, e mais um tanto de questões que continuo achando importantes! 
Mas... eu merecia... e não via outra forma de poder voar! Afinal, cabelos ao vento também deixam as orelhas de fora! Rsss...
Fiz a cirurgia no fim do ano, tive um pós operatório infernal... e escrevo hoje esse texto porque amanhã, pela primeira vez na vida, vou ao salão cortar o cabelo sem o pânico de encontrar alguém conhecido enquanto minhas madeixas estiverem presas para cima! 
Parece pouco... mas talvez pequena seja a nossa capacidade de julgar as nossas dores e, em especial, a dos outros!

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