Relato de parto... de gêmeos!

Conheci Natália quando seus bebês ainda estavam bem piticos em sua barriga! Me lembro como se fosse hoje daquele dia! Essa semana passada eles fizeram quatro anos, mas o presente foi nosso: como é lindo, uma honra pra gente, poder registrar aqui a história dessa família! 

 

           "Meu relato de parto acabou se tornando mais um filho a ser parido... e levou muito mais do que nove meses para ser gestado! Ficou gigantesco, reconheço... mas ele é muito mais o registro de minhas memórias do que um simples relato. Assim, o elaborei em capítulos, para facilitar a vida de quem porventura não tenha tempo para o ler na íntegra. Portanto, não se acanhe se precisar pular algum capítulo. Espero que, além de simplesmente registrar minhas memórias, sirva de inspiração para alguém que esteja buscando por ela.

         A Gravidez

         Ser mãe não era dos cenários mais atrativos para mim... acho que me imaginei e sonhei com isso há muitos anos atrás, ainda na época em que namorava meu marido (Luiz)... Se passaram 9 anos e meio de namoro e mais 9 anos de casados e nada... ele já queria há muuuuito tempo, e eu só enrolando, arrumando todas as desculpas imagináveis. Priorizei muito meus estudos e minha carreira profissional, e assim, costumava dizer que “filho não cabia na minha agenda”... Os parentes então (pais e mães principalmente) cobravam bastante, mas já estavam por desistir, com minhas respostas cada vez mais ríspidas e certeiras sobre o tema. Ô coisa chata que é te cobrarem filho, credo! Dava vontade de não ter só pra contrariar! Af...

         Era início de 2014 e eu já com 33 anos de idade, pensando no tal “relógio biológico” e que não poderia demorar tanto mais... Mas minha cabeça era um turbilhão de questionamentos, dúvidas, medos. Me perguntava, porquê/para quê ter filhos? Questionava às amigas mais próximas, ao Luiz... e era raro ter alguma resposta que me agradasse... a que mais fez sentido para mim foi a de minha grande amiga Camila Chaves, que disse que não queria passar por essa vida sem sentir esse amor tão imenso que deve ser o amor entre mãe e filho (a), e além disso que queria dar continuidade à família dela... Eu já tinha parado de tomar remédio (para “desintoxicar”) há uns meses, mas estávamos usando outros métodos para evitar filhotes. O combinado era esperar um ano para “liberar de vez”, e esse prazo já estava se esgotando. Entretanto, eu estava buscando novas desculpas para atrasar essa decisão mais um cadim, afinal, não me sentia nem um pouco preparada para ser mãe (e quem afinal se sente?). Maaaaas, após o retorno de uma de minhas viagens e com toda a saudade que tínhamos, esse outro método não foi eficaz. OPS...

          No dia 04 junho de 2014, já com alguns dias de atraso na menstruação, desconfiava daquele dia do deslize... ai ai... sem falar nada pro marido, comprei um teste de farmácia e, sozinha no banheiro, vi os dois tracinhos aparecendo. PUTZ, pensei: “estou fudida!” Foi meu primeiro pensamento, juro. Um mixto de susto, alegria, medo, estresse. Uma verdadeira bomba de sensações e pensamentos! Ainda assim, não contei pra ele, precisava de outros resultados. Comprei mais dois testes, de marcas diferentes. Fui dar aula à noite (com a cabeça em parafuso) e já comprei um sapatinho no caminho, pensando “esse negócio deve estar certo mesmo”. Na volta pra casa, entrei no banheiro com tudo: testes, sapatinho, caixinha de presente, papel pra fazer cartinha... Ele percebeu minha estranheza, bateu insistentemente na porta, brincou que era o cachorro que batia na porta, e eu, nervosa que estava, berrei um xingamento feio lá de dentro. Rs... Depois de mais dois testes “positivaços”, me conformei,escrevi um “Parabéns Papai” no bilhete e arrumei tudo na caixinha, junto com o sapatinho, para finalmente dar a notícia ao futuro papai, que, é óbvio, se desmanchou de alegria! Perguntou se os dois testes tinham dado positivo, e eu disse que não, foram três!

          E assim, de supetão, começou meu período gravídico. Nessa mesma semana da descoberta, ainda viajei para a sede do Instituto Onça-Pintada (interior de Goiás), onde trabalho há anos, junto com meus amigos queridos, Anah Tereza e Leandro. Minha boca era um túmulo, já que combinamos (eu e marido) de esperar até o terceiro mês para divulgar a grande novidade! Tive que arrumar desculpas para não beber a tradicional e deliciosa caipirinha e reduzir o consumo de café, discretamente, é claro...

          Minha médica eu já tinha escolhido, apesar de nem conhecê-la pessoalmente... Tinha visto matérias na TV e na Internet com a Dra. Silvia Helena Caires explicando e defendendo a humanização do parto, tema que eu já conhecia, mas por alto, graças à minha amiga Lorena Gondim (com quem troquei várias preciosas figurinhas durante toda a gestação). Como já tínhamos viagem marcada para Machu Pichu no dia 12 de junho (!),eu precisava urgentemente de orientações profissionais, e, por sorte, não foi muito difícil agendar uma consulta com ela, mesmo em cima da hora. Eu e Luiz fomos à primeira consulta com a Silvia e senti uma segurança e confiança enormes. Saí agradecendo a Deus por isso.

          As recomendações dela se resumiram em não tomar bebida alcoólica, não comer alimentos crus e não deixar os meus batimentos cardíacos ultrapassarem 145bpm. Fomos com meus pais e irmã, e continuávamos de bico fechado! Às vésperas do embarque, ainda tive um sangramento e comecei a tomar progesterona... a Silvia até pediu um ultrassom, mas nem deu tempo de fazer. A viagem foi maravilhosa, eu passei super bem e até subimos o Huayna Picchu (sim, aquela montanha em Machu Picchu)! Para isso, compramos um aparelho de medir os batimentos para eu ir monitorando. Meu pai subia muito mais rápido que eu, meu fôlego já estava comprometido o que me obrigava a ir beeem devagar. Mas consegui! Mesmo carregando dois na barriga, sem nem sonhar com isso ainda!

           No final do mês de junho, fomos fazer o primeiro ultrassom, e logo que a médica colocou o aparelho (transvaginal), foi dizendo na maior naturalidade (pensando que sabíamos): “Ah, são dois né?” Eu gritei: “Dois o quê, moça? Pára de brincar com minha cara! Pelamordedeus!” E mostrou os dois embriões, assim como ouvimos os dois batimentos cardíacos! Não dá para descrever a sensação desse momento! Choque, alegria... sei que comecei a chorar e disse: “Puta merda! Puta que pariu! Vou virar uma jamanta”, mais ou menos nessa ordem! O Luiz permanecia estático na cadeira ao lado, com os olhos esbugalhados e cheios de lágrimas. Na saída do exame, chorei muuuuuito mesmo, de soluçar. De imediato me preocupei com o parto, e pensei: “vão me cortar”. Na sequência, informamos à Silvia, que ficou completamente contaminada pela alegria e ainda me tranquilizou de que sim, existe parto normal de gêmeos, oras!

           A consulta seguinte ocorreu em meio a um turbilhão de dúvidas e medos... medo de diabetes, pré-eclâmpsia, cesárea, parto prematuro... achava que ia ter todos os problemas por ser gêmeos. Mas Silvia me tranquilizou e me indicou os profissionais que iriam me acompanhar ao longo dessa caminhada.

          Assim, fui atrás de: Nutricionista, Psicóloga, Doula, Terapeuta Corporal, Hidroginástica (após os 3 meses iniciais), Yoga, Canto para Gestantes, grupo de futuros pais e mães, grupo Bom Parto, curso para gestantes, palestras on line... Me cerquei de tudo e de todos (as) que podiam me ajudar tanto em termos de saúde física quanto mental. E claro, tudo isso foi fundamental para eu passar pela gravidez com muita saúde, animação e alegria! Claro que o sono era muuuuito em alguns dias, mas no geral, não tive problema algum (tirando umas hemorróidas mais para o final da gravidez, horrível!). Também não tive nada de inchaço, usei meias de compressão e cinta para ajudar a segurar o barrigão que crescia a cada dia.       

          Não vou contar os pormenores das 37 semanas e 5 dias de gestação, mas posso dizer que foi uma gravidez muito bem vivida e curtida!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        Fiz todas as viagens que queria (a última foi com 30 semanas, voltando do aniversário de 90 anos de minha saudosa vovó Neusa em Belo Horizonte!); participei de uma imersão de três dias com a maravilhosa Naoli Vinaver (parteira mexicana super renomada) e um grupo espetacular de mulheres; virei militante do parto humanizado e até em manifestação eu fui; curtimos com familiares e amigos dois chás de fraldas; fui super mimada em um chá de bençãos maravilhoso; me cuidei como nunca antes na minha vida; fui cuidada pelo marido como nunca antes em 18 anos juntos; conheci um círculo de mulheres poderosíssimas em Uberlândia, que me fez (e ainda faz!) crescer demais e melhorar como pessoa e mulher; estudei muito; tirei muita foto do barrigão; e até participei de uma apresentação de canto no teatro, com meu barrigão!... Ah, foi uma fase da qual tenho mesmo muitas saudades, por todos esses motivos acima...

A última semana

       A gestação toda foi tão perfeita que dava até medo. Ganho de peso bom (no total foram 17 kg) todos os exames ok, ultrassons perfeitos (sempre passava uns dois minutos após cada um deles chorando, de alívio e alegria...). Tudo se encaminhava perfeitamente até que na última semana houve uma reviravolta!

       Realizando os exames de rotina (no dia 10 de janeiro), percebeu-se uma alteração nos níveis de creatinina no sangue e na quantidade de proteína expelida na urina (condição denominada de proteinúria). E em meu último domingo estando grávida, foi comprovada uma préeclâmpsia. De início, não me preocupei muito, pois na minha ignorância, a pré não seria grave, já que não chega a ser a tal eclâmpsia de fato. No encontro seguinte com a nossa querida doula, a Kelly, inclusive continuamos com todos os planos para passarmos o máximo de tempo em casa, quiçá até parir no conforto do lar (mesmo sabendo que a Bia estava sentada)... mas na terça-feira, na consulta já agendada com a Dra. Silvia, o seu sorriso rotineiro havia sido substituído por uma expressão de seriedade incomum. Ela me explicou toda a gravidade dessa condição, e que pelos exames, já se poderia constatar que o meu rim estava sendo comprometido, e se evoluísse, haveria comprometimento do fígado e até do cérebro, sendo portanto, muito grave! A única solução para a pré-eclâmpsia seria parir! Neste momento, senti como se um buraco abrisse debaixo de meus pés, pois imaginei que sairia dali daquele consultório direto para uma cesareana, tudo o que não queria e não havia me preparado em todos esses meses. Enfim, minha pressão se alterou – obviamente, depois dessa bomba que tinha acabado de ouvir – e registrou 15 x 9.5, coisa que nunca

tinha ocorrido. Antes de me examinar, a Silvia me explicou que se eu tivesse uma dilatação mínima que fosse, que ela faria o descolamento de membrana para auxiliar na indução do parto. Eu resisti, não queria absolutamente nenhuma interferência. E, novamente com toda a seriedade do mundo, ela olhou bem no fundo de meus olhos e me explicou a necessidade daquilo (eu já estava até deitada na maca). Não me esqueço desse instante. E assim, ela o fez, já que eu estava com 1.5 cm de dilatação. Eu senti uma dor leve, mas que ressoou lá no meu interior... Eu e o Luiz saímos dessa consulta tensos como nunca... imaginando que a qualquer momento teríamos que correr pro hospital. Acho que foi o pior dia da minha gestação. Resolvemos não contar nada para meus pais (que moram em Goiânia), para poupá-los da preocupação.

        Na sequência, estudei a respeito e comecei a acionar todos os meus contatos e pensar as possibilidades para reverter a situação. Com a parteira mexicana Naoli Vinaver (com quem eu tinha participado de uma imersão junto com mais 30 mulheres em novembro de 2014), troquei mensagens via celular, em que ela me aconselhou: tomar um copo grande de água a cada hora, comer proteínas de qualidade a cada três horas, fazer repouso deitando do lado esquerdo e ao medir a pressão, fazê-lo deitada. E assim eu segui rigorosamente (exceto o repouso, que não foi tanto assim...)!

         No dia seguinte, quarta-feira, logo pela manhã, fizemos algumas fotos no Parque do Sabiá e na parte da tarde algumas pinturas na barriga com a amiga Fabíola, tirando também outras fotos do barrigão pintado. Ainda fui ao salão fazer as unhas e na casa da Sílvia, buscar uma homeopatia para ajudar a induzir o parto. Tomei rigorosamente, conforme orientação. E tarde da noite, chamamos o Dr. Walid (obstetra), que fez uma eletroacupuntura com a finalidade de induzir o parto e estimular a virada da Beatriz, que estava sentada (esse último propósito sabíamos que era remoto conseguir, pelo tempo gestacional, mas tentamos...).

          Na quinta-feira, após pegarmos outra bateria de exames, seguimos novamente ao consultório da Dra. Silvia... Como eu não poderia pedir que ela medisse minha pressão comigo estando deitada, eu fiz todo o percurso da minha casa até lá, deitada no banco de trás do carro, do lado esquerdo! Luiz ficou preocupado, tamanha a minha barriga e eu lá me segurando... mas segui, firme. Chegamos e ela viu os exames, mediu a pressão (que tinha melhorado: 13 x 9), e logo me deu um abraço! Emocionada, disse que a pré-eclâmpsia tinha estabilizado e que eu tinha conseguido o tempo a mais que precisava... E esse tempo era fundamental, para que meus bebês fossem considerados a termo. Ai que alegria! UFA!!

          Na sexta, fui ao centro espírita na parte da tarde, junto com a Fabiane, terapeuta corporal que cuidou de mim por toda a gestação. Recebi o passe e a cura. Chorei muito, desabafei... estava aliviada mas ao mesmo tempo com muito medo. Fabi me cedeu um ombro amigo tão fundamental nessa hora! No final do dia fui à minha aula de hidroginástica, como de costume. Todos estavam espantados com o tamanho da barriga: “menina, você vai parir nessa piscina!” E eu pensando: “bem que eu gostaria!” E, de fato, durante a aula, eu senti uns estralos no baixo ventre. Sem contar, é claro... as contrações de treinamento que já me acompanhavam há um tempo. À noite, fomos ao shopping, andamos um bocado, medi a pressão lá mesmo (estava ok) e ainda jantamos em um restaurante japonês, e tirei a barriga da miséria! Foi ótimo, e estava me sentindo muito bem e feliz!

O parto

         Na madrugada do dia 17 de janeiro de 2015 (eu com 37 semanas e 5 dias de gestação), passei muito calor e estava extremamente desconfortável. Apesar de ainda conseguir dormir deitada, nessa noite acordei várias vezes para ir ao banheiro e me sentia muito incomodada... por volta de 6:00, senti do lado esquerdo da minha barriga, um “PLOC” e veio a inundação! A bolsa tinha se rompido! Chamei o Luiz aos gritos e ele acordou assustado! A cama estava forrada, mas me levantei para poupá-la, e fui ao banheiro. Depois analisei a cor do líquido, que estava claro... UFA, nada de mecônio. Abracei o Luiz – “É hoje! Eles estão chegando!” Que alegria! Logo já encaminhei uma mensagem para a Dra. Silvia (obstetra) e outra pra Kelly (doula)... na sequência de mais líquido saindo, percebi a coloração escura do mecônio e me preocupei. Mas a Silvia me tranquilizou, explicando que era comum, já que a Beatriz estava sentada. As contrações ainda não vinham muito ritmadas, e quase não tinha dor. Estava bem tranquilo, fui tomar um banho calmamente... Silvia chegou para me examinar lá pelas 7:00, eu estava com uns 2.5 cm de dilatação. Me passou um pedido de raio X para verificar o posicionamento da Beatriz (que aparentemente estaria mais baixa do que o Fernando, segundo os ultrassoms).
Tomamos café e comemos pão de queijo tranquilamente, junto com a Silvia. Depois, o Luiz tirou um feijão do congelador pro almoço... E assim, achei que iríamos curtir esse dia todo de boa! Abri o notebook e coloquei o

Luiz para ler o plano de parto exemplo da Kelly, pois surpreendentemente não havia feito o nosso (!) – que lástima! Mas rapidamente as contrações foram se tornando mais ritmadas e doloridas! Começava a vocalizar quando vinham... fui para o chuveiro pra um banho quente. Não achei que devia ir tirar esse raio X no Madrecor (hospital mais próximo de minha casa), já que provavelmente me internariam lá nas condições em que eu estava. Chamamos novamente a Silvia, e ela deve ter retornado umas 9:00 e verificado que já estava com uns 8 cm de dilatação! Foi muito rápido, e tive a ingênua impressão de que o ritmo se manteria assim... E ela: “Vamos para o hospital!” E corre pra lá, corre pra cá, pega mala da mãe, mala dos meninos, câmera, chocolate, gatorade... entramos no carro, eu ajoelhada no banco do passageiro, e o Luiz: “como é mesmo o caminho para lá?” (isso porque treinamos a melhor rota alguns dias antes!) Sorte que a Silvia estava junto e fomos seguindo-a... as contrações iam só aumentando, aumentando!

         Na entrada do hospital... preenche ficha daqui, ficha dali... me colocaram na cadeira de rodas, e quando a Kelly chegou e viu isso, já ficou braba! Me lembro bem que achei impressionante como todas as pessoas chegaram tão rápido: a própria Kelly, a Dra. Luanda (a outra obstetra que auxiliou no parto), as duas pediatras contratadas (Dra. Rute e Dra. Andressa), mais a fotógrafa Clarissa! Parecia que estavam brotando do chão! Kelly me pôs para ir caminhando até o quarto, e no caminho, dá-lhe massagem na lombar! Isso era umas 10:30... no quarto, tirei toda a roupa, estava com muita gastura de qualquer tecido em mim. Um calor infernal! Nada de ventilador ou de ar condicionado. Começou um revezamento entre a Kelly e o Luiz para me abanar e massagear a lombar! (A Silvia também acabou entrando na “dança do abanamento”). Também me molhavam com pano úmido. Me recordo da Kelly vindo me oferecer água em uma garrafa com canudinho, tão delicada... E eu não quis aquilo, sedenta que estava, pegava a garrafa e derramava na boca com tudo! Muito tempo depois, ela própria me contou que uma hora ela estava com uma garrafa com água da pia só pra me molhar, mas que eu ranquei da mão dela e tomei! A Kelly também garantiu um fundo musical especial, aquelas seleções de músicas “para parir”... As contrações cada vez mais fortes, ritmadas e doloridas, a cada momento eu ficava em uma posição. Deitada na cama, de quatro na cama, em pé, me remexia, ficava na ponta dos pés... a Kelly usou o rebozo... Eu já me encontrava na partolândia... em um determinado momento vomitei muuuuuito, e Luiz que segurou tudo com uma toalha, coitado! Imagino a tensão dele neste momento. Lá pelas tantas, fui para a ducha, e também usei a bola de pilates no banheiro. Kelly colocou toda a equipe para fora do quarto, para me dar mais tranquilidade. A Silvia sugeriu que eu cantasse e me lembro que achei aquilo um absurdo, completamente impossível! E lá fui eu tentar cantar... mas as contrações vinham no meio das estrofes me impedindo de continuar e eu ficava com muita raiva disso! Ainda assim, eu pelejei (e a Clarissa lindamente registrou alguns desses belos momentos, inclusive de uma música que a Juliana Penna, professora de canto, fez pra gente!). Imagino que por volta de 12:00 a Silvia veio conversar comigo e me explicar que naquela mesma semana haviam proibido os partos em quartos naquele hospital e que teríamos que ir para o centro cirúrgico. Eu não sabia disso, e confesso que essa informação me pegou de surpresa. Ela disse que quando estivesse mais próximo do período expulsivo, que poderíamos ir. Mas como eu saberia que momento seria esse? Isso me deixou angustiada, e num determinado momento, falei pra gente ir logo então, pra que eu não ficasse nessa expectativa.

           Então, pouco depois das 13:00, colocaram em mim um avental, touca e um protetor para os pés, e

seguimos andando para o centro cirúrgico. Eita caminhadinha difícil essa! Chegando lá, soube depois que a Silvia e Kelly ficaram positivamente surpresas com a forma em que as enfermeiras arrumaram o local: retiraram a maca e deixaram no centro da sala apenas um colchonete forrado com a banqueta de parto por cima. No fundo da sala, as duas maquinhas para receber os bebês. Mas, nesse momento, toda a equipe retornou, devidamente vestidos, assim como o Luiz, de touca, avental e proteção para os pés. Eu, logo que cheguei lá, retirei toda essa parafernália de mim e voltei a ficar nua. Além da equipe, várias enfermeiras desconhecidas entravam e saíam do centro cirúrgico constantemente, o que, de fato, me tirou demais a concentração. Me lembro da Silvia chamando minha atenção disso num determinado momento, para eu não focar naquele povo todo. E ali, seguimos por mais um tempo, agora sem o acompanhamento fotográfico da Clarissa. O calor continuava extremamente intenso para mim, mesmo com o ar condicionado ligado dessa vez (Luiz conta que estava até passando frio!), de modo que o revezamento do abanar se manteve. Me recordo que uma hora pedi “vento!”, me referindo ao abanar, e me lembrei de uma música que minha mãe cantava (até gravou em um LP quando jovem!), e assim, eu cantei um trecho também: “Ventoooo, diga por favor, aonde se escondeu meu amor?!”- neste instante eu reverenciava minha mãe e minhas ancestrais, fazendo com que, de certa forma, essas mulheres estivessem presentes naquele momento ali comigo! (De fato, minha mãe ainda nem sonhava que eu estava em trabalho de parto, foi avisada apenas uma hora após o nascimento dos pupilos!). No meio de inúmeras contrações e posições, me lembro de ter visto sangue pela primeira vez e achar aquilo tão bom! Sinal que alguma coisa progredia por ali... a uma certa altura do processo, uma dor intensa dentro da minha barriga passou a me incomodar – talvez tanto quanto as contrações – me tirando completamente a concentração. Acharam que poderia ser urina (pois eu bebia muita água, mas não urinei muito), e colocaram uma sonda, mas saiu muito pouco (soube disso só depois, pois não estava a par de tudo o que ocorria). De fato, essa dor me tirou o foco e nunca soube qual teria sido a sua origem! No centro cirúrgico também aconteceu de eu defecar pelo menos duas vezes... sabia que aquilo poderia acontecer e não me abalei. Mas me lembro de uma hora ter arrotado bem na cara da Luanda e ter pedido desculpas... rs. Também me recordo de ter “discutido” com a Silvia ao menos duas vezes, pois eu dizia que não poderia gritar mais alto para o hospital não proibir partos naturais ali ou mesmo proibir a sua entrada nele (o que estava realmente ocorrendo em outros hospitais da cidade). Ela me xingava um bocado quando eu falava isso... depois de cerca de 3:30 no centro cirúrgico, de andar por ele, ficar de joelhos, passar pelo rebozo... vi quando a Silvia e Luanda saíram para conversar com expressões muito sérias em seus rostos. Na volta, a Silvia me explicou que o parto não estava mais progredindo como deveria (meses depois soube que o motivo disso era que a Beatriz não tinha se posicionado para descer), que elas já tinham aguardado o tempo máximo e que assim, precisaríamos partir para uma cesárea. Essa era a última notícia que eu queria ouvir naquele momento. Mas, eu apenas confirmei olhando em seus olhos se era aquilo mesmo, buscando ainda o olhar da Kelly como um aval. Kelly confirmou que já havíamos feito de tudo. Em momento algum durante todas essas horas eu sequer me lembrei que havia cesárea no mundo ou solicitei qualquer tipo de medicamento pra amenizar as fortes dores. Mas, ainda que fosse o que eu menos desejasse naquele instante, recebi a notícia de modo tranquilo, pois confiava demais naqueles “anjos” que estavam me acompanhando. Por alguns instantes, deixaram eu e o Luiz sozinhos na sala, e ele me chamou pra dançar. No meio dessa “dança”, veio uma contração e ele falava: “Se entrega, se entrega!” O apoio e completa dedicação dele no trabalho de parto foram as maiores demonstrações de amor que já recebi, extremamente apaixonante. Mas, a realidade não me deixava mais acreditar que meus filhos nasceriam via natural, já tinha assimilado essa mudança de planos. De modo que, os próximos passos seriam mudar de centro cirúrgico (montado para uma cesárea) e aguardar a anestesista (que deve ter levado uns 30 ou 40 minutos para chegar). Aí sim, foram os piores momentos do trabalho de parto, pois parecia que as contrações tinham se intensificado, e ter contração para não parir não me agradava de jeito nenhum. Nesse momento, a revolta e o desespero tomaram conta de mim. Me lembro de pedir à Kelly para fazer aquilo parar, me darem um remédio... acho até que chegaram a dar, mas pareceu não fazer efeito algum.

         No “novo centro cirúrgico”, uma enfermeira tocou em mim durante uma contração para me consolar e eu enfurecida pedi que chegasse pra lá (acho que na verdade, não foi tão suave assim que eu falei). Me sentaram na maca e enfim a anestesista chegou, chupando um chiclets e comentando do meu “barrigão”. Nesse instante, estavam apenas a Silvia e a Luanda dentro da sala, mas distantes de mim. Luiz e Kelly observavam de fora até serem autorizados a entrar pouco depois. A anestesista me explicou o procedimento, dizendo que teria que aplicar a peridural entre as contrações, e acho que me espetou pelo menos umas 3 vezes. Me recordo que durante uma das contrações no meio desse processo de aplicação da anestesia, ela quis me confortar com algumas palavras tipo “vai passar, vai passar”, e eu cheguei a fechar o punho pra dar na cara dela... fiz um olhar de ódio mortal, mas me contive, pois precisava daquela mulher naquela hora. Assim que conseguiu, me colocou deitada rapidamente (para fazer efeito dos dois lados). Na sequência, ela posicionou o Luiz perto de mim e eu pedi que não me amarrasse. Assim, Luiz ficou segurando meus braços. Nessa hora, senti um tremor imenso em todo o meu corpo, tremia muito mesmo. Sentia os movimentos em minha barriga. Não sentia dor, mas um remelexo (ao dizer isso pra anestesista, ela confirmou que minha barriga já estava aberta e que em pouco tempo eu estaria com meus filhos). A sensação que tive foi de que era um ratinho de laboratório, completamente vulnerável, impotente, passiva... Me lembro com bastante clareza essa sensação (péssima, por sinal!).

Realmente, em poucos minutos após ter sido deitada, abaixaram o tecido e pude ver a Beatriz sendo retirada de mim (era 17:55)! Como ela precisou ser atendida (recebeu oxigênio por uma dificuldade respiratória, mas ali mesmo, ao meu lado – mas eu só soube disso depois), não foi pro meu colo naquele instante. Luiz, só olhava pra ela e eu perguntava como estava, mas ele dizia estar tudo bem. Na sequência (cerca de 3 minutos depois), retiraram o Fernando (sua bolsa estava íntegra ainda, e foi rompida pela Silvia) e me passaram ele por debaixo do pano, de modo que pude pegar aquele serzinho todo melecado de vérnix e senti-lo no meu colo. Puxa, quanta emoção! Completamente indescritível! Em seguida, fui exigindo que o Luiz cortasse o cordão... Ele estava tão preocupado com a Bia, que estava sem vontade alguma... mas a anestesista sabidamente o aconselhou a fazê-lo, senão iria ouvir sermão da esposa por toda a vida! Rs. Depois, uma das pediatras me contou sobre a Bia, que precisou de oxigênio, mas que reagiu bem e que estava ok (só bem depois soube da real gravidade, seu apgar inicial foi de 2!). Os dois ficaram um pouco em observação, mas logo foram pro quarto. Eu me recuperei bem rápido da

anestesia, e pouco depois de 20:00 estava recebendo os dois para sua primeira mamada no quarto, com a ajuda carinhosa da Kelly e da Janaina, nossa consultora de amamentação. Nossa amiga Fabíola foi a única a nos visitar no hospital – eu nem tinha contado pra ninguém pra onde íamos – e meus pais só souberam de tudo após os meninos nascerem, chegando de Goiânia no dia seguinte.

         No dia seguinte ao nascimento, a dor da cesárea (obviamente maximizada por ter ficado quase 12 horas em trabalho de parto) me impedia de ficar em pé direito. Esbravejei com a enfermeira toda a minha revolta por estar naquela situação no momento em que ela me ajudou a tomar um banho meia-boca. Os remédios que foram passados para uma semana tiveram que ser duplicados tamanha era a dor que eu sentia. Fiquei extremanente inchada também, coisa que não ocorreu durante toda a gravidez! Mesmo assim, fiz questão de dar o primeiro banho em um deles (já em casa, no dia 19, após a alta do hospital). Nos primeiros meses, olhava com raiva pro corte da cesárea e não aceitava de forma alguma ter passado por aquilo. Com um mês do nascimento, deixei os dois com o marido e minha mãe, e participei de uma roda de mulheres e desabafei tudo, chorei muito... Falava com pesar sobre o modo como nasceram (ainda que tenha sido uma cesárea humanizada), e aquela dor ainda me acompanharia por muito tempo... Mas, um dia, conversando com a Luanda sobre o parto e seus detalhes, ela me disse que quando me examinava durante o trabalho de parto, sentia o cóquis da Bia, e não seus pés ou o seu bumbum, e que, nesta posição, ela não desceria e sairia, sendo este o real motivo da parada de progressão do parto. Quando eu ouvi isso, foi como se uma luz entrasse na minha cabeça e fizesse eu, enfim, realmente aceitar a cesárea. Apesar do desfecho da cirurgia, não arrependo de modo algum por ter passado também por quase todas as etapas de um parto natural sem intervenções. Faria tudo de novo, pois sei o quão importante todo esse processo foi, para mim, meu marido e para meus pimpolhos, tanto em termos de saúde quanto de conexão profunda de nossas almas.

A Nova Vida

        Hoje, ao finalmente concluir esse relato, após mais de três anos do nascimento de minha duplinha dinâmica, percebo o quanto mudei e o quanto cresci como pessoa ao me tornar mãe. O quanto meu mundo cresceu em termos de possibilidades de vivências, de conexões e de expressão do amor. O quanto a minha noção de prioridades na vida foi revista... O quanto a minha noção de tempo sofreu reajuste! O quanto a minha definição de “ser dinâmica” foi atualizada... Em tão pouco tempo de maternidade, já foi tanta coisa vivida! Aventuras, viagens, novas amizades, descobertas mil, mas também alguns perrengues, noites (inúmeras) em claro, narizes escorrendo, braços quebrados, dentes quebrados! De fato, a maternidade não é um caminho fácil a se trilhar, e costumo dizer que “não é para qualquer um”. Mas ao mesmo tempo é algo tão precioso e valioso, que só vivendo para compreender toda sua imensidão! Hoje não me imagino mais não sendo mãe de Beatriz e Fernando."

 

 

 

 

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