A CONSTRUÇÃO DO SEXO DO BEBÊ

            Viver é um construir e um desconstruir. A maternidade então... Pura desconstrução. Reconstrução. Construção. Não sei se o título apropriado para esse texto seria esse... Mas aqui quero contar sobre a minha decisão de não saber o sexo do meu bebê durante a gravidez. E eu só consigo contar isso, se contar toda a minha construção, desconstrução e reconstrução como mulher. Como mãe.

           Descobri que estava grávida do meu primeiro filho, em julho de 2011. Que alegria! Contei pra todo mundo, coloquei vídeo no facebook, liguei para todos os parentes! Que legal! Fui pesquisar quando saberia o sexo daquela criança... O QUE???? Só com 14/16 semanas?? Daqui 3 meses? No way! Não consigo esperar!

           Diante dessa angústia toda, um grande amigo tinha voltado de uma viagem do exterior há pouco tempo. E dessa viagem, ele trouxe um exame que “descobria” o sexo do bebê através da urina. Esse exame poderia ser feito a partir da décima semana. Menos mal!

           Esperei ansiosamente até a décima semana, fiz o exame: MENINO! Ahhh... Já começamos a pensar no nome, olhar roupinhas, planejar o enxoval no exterior... em março de 2012 nasceu nosso primogênito: Miguel

          Em dezembro do mesmo ano, descobri que estava grávida de novo! Uau! “André, você tem mais daquele teste?” “Não tenho... só tinha aquele... mas acho que vende pela internet”. Comprei o teste no mesmo dia que descobri que estava grávida e comecei a torcer para o exame chegar antes da décima semana! Chegou! Fiz! Resultado? Outro menino!!! Que legal! Dois irmãozinhos, vão ser companheiros... Já até sei o nome! Henrique! Vamos ver quais itens do enxoval do Miguel que vai dar para aproveitar pra esse outro bebê... Vai ser muito legal!

         Planejamos em fazer o enxoval no exterior novamente. Como viajaríamos, compraríamos muitas coisas até o segundo ano do bebê. Mas um dia antes da viagem, fui ao médico fazer o ultrassom morfológico do segundo semestre. A médica que estava realizando o ultrassom falava “Olha aqui a barriguinha dela”, “esse é o fêmur dela”... DELA? Como assim?

         Perguntei para a doutora: “Está tudo bem com o bebê?”. Ela responde: “Sim... tudo certo! Parabéns!”. “Então a senhora poderia só confirmar o sexo por favor? Eu achava que era um menino...”. Ela respondeu: “Não... eu vi que era uma menina! Vamos confirmar!”.

         O bebê estava com as pernas cruzadas. Não dava para confirmar. Putz... como que eu vou viajar com essa dúvida? Doutora, olha de novo: Não... as pernas estão cruzadas. Não dá pra ver.  Ai meu Deus! Bebo café, como chocolate... faz outro exame, doutora! É... é uma menina!

         Um dos sentimentos mais estranhos da minha vida. Eu já estava preparada para um outro menino. Ai de repente, tudo muda. O Henrique... O que aconteceu com ele? Ele não existe mais... Aliás, ele nunca existiu. Por um lado um sentimento parecido com o luto de que meu bebê não estava lá mais. Por outro lado, uma alegria enorme de ter uma menina, formar um casal com o Miguel... Enfim... um misto de sentimentos. Todo esse sentimento me fez pensar sobre os motivos de querer saber tão precocemente quem é esse bebê dentro da minha barriga. Pra que essa necessidade? Porque atropelar o tempo das coisas? Muda em algo o gênero da criança? Serão meus filhos e amados, independente de qualquer coisa...

Em setembro de 2014, nasceu a Luiza! Minha menina!

          A Luiza nasceu em uma quarta feira. O Miguel tinha 1 ano e cinco meses. Não andava. Não falava. O desenvolvimento dele estava estacionado. Eu estava bastante preocupada. Na sexta feira, dois dias depois que a Luiza nasceu, me veio o diagnóstico: Paralisia cerebral. Meu mundo caiu. Uma notícia dessa em pleno puerpério...

          Os próximos meses foram os mais preciosos da minha vida. Sempre “planejei mentalmente” meus filhos: seriam os primeiros da sala, bilíngues aos 5 anos, praticariam esporte e não dariam birra no supermercado! Ter um filho que eu não saberia nem se iria andar, provocou em mim muito choro. Medo. Durante uma noite em claro, mergulhada em lágrimas, vi o dia amanhecer. Precisava acordar o Miguel para leva-lo à terapia na AACD. Cheguei no quarto dele, passei a mão no cabelinho dele e disse: “meu filho, acorda. Precisamos ir para a terapia”. Antes mesmo de abrir o olho, ele abre um sorriso. Ali eu vi que não importava quantos esportes ou quantas línguas ele falava. Eu tenho um filho que é feliz. Isso que importa! Desconstrução.

          Expectativas quanto aos filhos só trazem peso a eles mesmos. A nós mesmos. Um grande erro é transferirmos a eles os NOSSOS sonhos. Transferirmos a eles a responsabilidades de eles corrigirem NOSSAS frustrações. Essas expectativas são geradas durante toda nossa vida, mesmo antes da gestação quando pensamos “quando eu tiver um filho...” e são ainda mais valorizadas quando estamos grávidas. Mais ainda quando sabemos o sexo: planejamos a profissão – embasado no que é serviço “de mulher” ou “serviço de homem”. Atividades que irá fazer... Tudo baseado no que já é determinado culturalmente para meninos e meninas.

          Em julho de 2014, uma surpresa: grávida novamente! A experiência de já estar na terceira gravidez, toda a vivência com o Miguel me descontruiu. Já não era mais a mesma mulher. Todos os dias eu era uma nova mulher. Desconstruída tentando me construir. O que eu queria para esse bebê era diferente: quero que ele brinque! Quero que ele seja feliz! Quero que ele seja ele! Quero me conectar com esse bebê com o que ele já é... e não com o que ele poderá vir a ser!

         Decidimos, eu e meu marido, que não saberíamos o sexo. Não faríamos enxoval no exterior. Preocuparíamos com o que realmente importa: preparar o lar para essa criança, proporcionar a ela um parto respeitoso, nos conectar com ela. Desconstrução.

         Para muitos, essa decisão foi descabida! Como você vai fazer o enxoval?  

         Não me importava muito as cores das roupinhas! Reconheço ser muito difícil encontrar peças “neutras”... Mas essa não era a minha prioridade mais. Poderia ter só o básico do básico... Aliás... Do que um bebê precisa?

         Nas minhas construções e desconstruções vi que um bebê precisa de afeto. Precisa de respeito ao nascer, precisa de colo, de peito, de uma mãe bem amparada no puerpério, e de poucas peças de roupa. Então enxoval não é problema.

         Aliás, não tem problema comprar algumas coisas para o bebê DEPOIS que ele nasce! As lojas não fecham!! Essa lógica do consumismo nos faz investir em itens que nem sabemos se usaremos, se são realmente úteis, mas com o peso de que “não posso deixar faltar nada para meu filho”, acabamos investindo tempo, dinheiro e energia no que não é primordial.

         Me conectei com meu bebê. Não sabia o sexo e também não via sentido em pensar um nome sem primeiro ver o rostinho dele! Sem ficar alguns dias com ele...

         Dia 11 de março de 2015 às 11h15 nasceu meu bebê! Peguei ele, olhei o rostinho... “Oi! Que bom que você chegou! A gente já te ama muito!”. O bebê respondeu: “cof cof”. “Ops! Você tossiu?! Seus irmãos adoram brincar de tossir! Você vai gostar muito de conhece-los!”. Peguei o bebê no colo e só depois eu vi: um menino!

          Colocamos uma roupinha que era do irmão mais velho, almoçamos juntos e nos primeiros dias nos conhecemos. Era um bebê forte, esperto, poderoso e que também nos empoderou como família. Sete dias depois decidimos o nome: “Henrique” que significa “Príncipe poderoso”.

          Hoje seguimos nos construindo, desconstruindo, reconstruindo. Cada filho nos trás novos encontros, confrontos, reencontros – internos e externos.

                                            “Desde o nascimento de nossos filhos temos a oportunidade de aprender sobre esse estranho                                                  movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar. Nem sempre percebemos que esses                                              pequenos movimentos são ensinamentos sobre o exercício da liberdade”. Ruben Alves

 

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