Gratidão...

        Essa semana passada, que foi de muito trabalho, nas rápidas vezes que entrei nas redes sociais ou abri sites de notícias, um mesmo assunto me chamou a atenção...
        Não gosto de ficar lendo tragédias, mas as notícias, distintas, embora com um tema em comum, me fisgaram e “tive” que ler...  
        A primeira delas falava de um casal, que havia antecipado o casamento, para que o filho deles, de dois anos, com câncer, pudesse participar desse momento (AQUI). 
       Na segunda, a história era de uma filha, que para dançar com seu pai com câncer terminal, criou um casamento de mentira (AQUI); e a terceira, um caso bem parecido, só que a “noiva” agora era uma menina de 11 anos, e o “casamento” havia sido organizado pelo pai! (AQUI).
      Confesso, num primeiro instante, julguei... especialmente os dois últimos casos. Pensei, de pronto: nossa, do que vai adiantar se quando chegar o casamento de verdade os pais não vão estar lá?! E mais: ai, o que tudo isso vai gerar para a vida dessa menina de 11 anos?... 
      Afff, como é difícil o esforço diário de não julgar o outro...  Mas nessa tentativa, fiquei pensando nisso tudo... e descobri tanta coisa!...
      Quando tinha 14 anos meu pai enfartou. Não me lembro bem de como tudo aconteceu. Lembro que meu pai estava no trabalho, e que alguém chegou de lá para avisar que ele tinha passado mal e que tinham transferido ele para um hospital de uma cidade vizinha de onde morávamos. Nisso, era só eu e minha mãe, já que meus irmãos moravam a quase 600 quilômetros de distância.
      Não tínhamos notícias do que ele tinha exatamente (embora tivéssemos certeza de que era algo grave), não tínhamos como ir para a cidade vizinha imediatamente: o carro do meu pai havia ficado no trabalho, e minha mãe não sabia dirigir. Depois de um tempo, amedrontador, conseguimos (não sei como) alguém para dirigir o carro do meu pai para que pudéssemos chegar ao hospital. 
     Todo o ocorrido para mim não é claro, mas a sensação do medo que senti naquele momento, quase consigo sentir novamente. 
     Pelos problemas de coração que meu pai já teve e os desdobramentos que isso acarretou: os vários cateterismos, a cirurgia de ponte de safena, a angioplastia, e, claro, sobretudo por conta desse dia do enfarto, o medo de perder meu pai ficou internalizado em mim.
     E esse medo se fazia sentir sim, quando pensava que, futuramente, quando fosse me casar, poderia não ter meu pai para entrar na igreja comigo... Especialmente nos casamentos que ia e que não havia o pai da noiva, essa ideia me atormentava a cabeça. 
     Lendo essas notícias, me recordei disso. 
     Enfim, me casei... no fim das contas não foi um casamento na igreja, e na cerimônia que preparamos, marido e eu, “entrávamos” nós dois juntos... Mesmo tendo meu pai nesse momento importante, o fato é que fiquei até aliviada, mesmo que isso não fizesse sentido, quando decidimos que não haveria a entrada com ele. Acho que a ideia de que poderia não ter essa oportunidade ficou tão forte em mim, que já havia internamente aceitado um casamento “sem entrada”; e agora percebo que isso tem uma forte relação com esse medo que sentia. 
     Hoje data um mês sem minha mãe, e tudo isso me faz refletir em como me sinto todas às vezes que penso nela... Quando isso acontece? Toda hora... mas, especialmente, quando minha filha fala algo engraçado, quando meu filho ensaia dizer uma palavra, quando volto do pediatra com ele, quando ele anda para um pouco mais longe, quando eles disputam um brinquedo, quando compro ovos de páscoa e penso em como vou escondê-los, quando meu filho tem febre à noite, quando penso que minha mãe não conhecerá e não estará ao meu lado quando meu próximo filho nascer... 
     Quando, quando, quando?!... SEMPRE! Mas especialmente em todos os momentos que eu sei que ela gostaria de compartilhar da minha vida, assim como em tantos outros que eu gostaria de compartilhar com ela, porque são importantes pra mim... 
     E quando ensaio ficar completamente arrasada por isso, e quando a falta de referência toma conta de mim, me vem um sentimento de que poderia ter estado mais perto, ligado mais, estado mais junto...
     Claro, poderia mesmo, sempre podemos... Mas a sensação que tenho é que por mais que façamos, que possamos compartilhar, dizer, amar, por mais que nos fosse dada a oportunidade de mais de cem anos, nunca consideraríamos suficiente o tempo que passamos com as pessoas que amamos. 
     Então... respiro fundo, e resgato, de dentro do meu ser, meu sentimento de gratidão. O mesmo sentimento de gratidão que tive enquanto meu pai discursava no meu casamento (Rsss...!). Gratidão por minha mãe ter conhecido meus filhos que já estão por aqui. Gratidão por ela ter me visto casar. Gratidão por ela ter estado presente na minha formatura. Gratidão por tantos momentos importantes, ainda que corriqueiros, dos quais ela pode fazer parte.  
     E a expressão de orgulho dela em todos esses momentos era tamanha, que a percebo claramente até pelas fotos. E tudo isso me faz acreditar que tenho honrado tudo o que ela foi, e sempre será pra mim... E que assim seja, e assim sempre será...! 
     Voltando às reportagens que mencionei no início do post, um novo pensamento me vem à cabeça: cada um do seu jeito, em qualquer momento - um casamento “de mentira”, ou um sorvete na esquina, podem ser momentos especiais, possibilidades de nos abastecer de amor... e não é isso o que mais importa e o que a gente mais busca nessa vida? 

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