Cartas para Merylin

      Até agora, nos posts que tenho escrito, em geral algo me motiva, mas empolgo e uma coisa vira um monte de outras coisas! 
     Estava conversando sobre isso com uma mãe de uma amiguinha da minha filha: interessante como para falar eu penso em um monte de coisas, mas falo menos (por aqui marido reclama que não sabe ler mente! Rss...) e, para escrever, tenho grande dificuldade de sintetizar e me conter em um único assunto.
     Em minha família de origem (olha que chique, aprendi esse conceito no Workshop que fizemos e foi divulgado aqui no blog!) temos uma grande dificuldade, todos nós: escutar o que o outro diz. Meu pai é assim, meu irmão é assim, minha irmã é assim, eu sou assim, e minha mãe, embora em menor grau (coisa de mãe né?!), também era!
      Não sei bem de onde vem isso, mas somos dispersos, ao ponto de muitas vezes perdermos o foco de uma conversa; em outras tantas, ouvimos, mas deixamos a outra pessoa sem resposta (embora às vezes respondamos mentalmente! Rss... o que dá a sensação de que não ouvimos foi nada né?!) e, em outras, pior, atropelamos o outro dizendo o que nós mesmos pensamos a respeito do assunto!
     Péssimo isso né?! O que me consola é que, em geral, esse problema não é só nosso: as pessoas tem dificuldade mesmo para se comunicarem!
     Tenho observando e já percebi, por exemplo, que uma das coisas que faço muito é falar rápido. Parece obvio: se convivo com pessoas que não ouvem, preciso falar rápido com a esperança de que consiga chegar ao final do assunto antes que o outro desista! Chega a ser engraçado, mas é verdade! 
     O fato é que, tudo isso, contribuiu bastante para que eu adore escrever: o papel me espera (rss...); nele, eu que sou impulsiva e muitas vezes falo o que não devo, tenho tempo e oportunidade de ser mais reflexiva, e, sobretudo, não conto com o julgamento do outro imediatamente após o que acabei de “dizer”. Na verdade, muitas vezes, o julgamento do outro fica só pra ele né, o que em alguns casos chega a ser um alívio! Rss...
      Já contei aqui do caderno que faço para meus filhos, mas o gosto por escrever vem de longe... “Senta que lá vem a história”... Rss....
     Quando tinha uns 9 anos de idade “me apaixonei” por um menino mais velho, meu vizinho de 11 anos, e sonhava com ele quase todas as noites.  No sonho, ele estava encostado em um muro e ria pra mim! Isso, só isso! Rsss... (mesmo porque, lá em casa, nem se cogitava – graças a Deus - a ideia de uma CRIANÇA de 9 anos namorar!). Acho que foi meu primeiro amor platônico... e também minha primeira desilusão amorosa, já que, um dia, minha amiguinha de 13 anos começou a namorar com ele! Pronto, estava posto o motivo para que eu escrevesse meu primeiro texto reflexivo: uma carta para mim mesma, pensando na vida e nos dilemas de relacionamento... 
     Quando tinha 12 anos mudei de cidade por conta do emprego do meu pai; e meus irmãos, bem mais velhos (AHAHAH), continuaram a morar em Uberlândia. Nessa época, me lembro de escrever um livrinho de poesias, contando do meu desalento com toda aquela situação. Pelo menos autocrítica eu acho que tinha muito: por um lado, o livro de poesia permitiu que eu expressasse um pouco meus sentimentos, por outro, achava que aquilo tinha ficado ruim demais! E tinha mesmo!
     Dois anos depois me mudei de novo, e esse foi o ano que considero como tendo sido o mais difícil da minha vida. Mudar de cidade aos 14 anos, mudar de escola de novo, mudar para a casa da minha avó para cuidar dela, continuar longe dos meus irmãos, o enfarto do meu pai...  Apesar de tudo isso, nesse ano, conheci uma amiga muito especial na escola, e num ano de completa crise “adoslescênica”, uma troca de bilhetinhos na sala de aula foi se transformando em uma troca de cartas. Eu e essa amiga criamos uma personagem imaginária (a Meyere), e para ela escrevíamos nossos dilemas existenciais. Na verdade, nós duas éramos a tal da Meyere, ela escrevia, eu respondia, e vice-versa... E toda essa escrita me ajudou muito nesse período da minha vida!
     Ano seguinte, cidade nova, escola nova, de novo... E “o novo” me trouxe um dos maiores presentes da minha vida! Na aula de português, a professora nos mandou escolher colegas para que pudéssemos trocar cartas sem nos identificar. Lembro que comecei a escrever para umas quatro amigas e receber delas cartinhas que ainda hoje tenho guardadas. Eram cartas caprichadas: fazíamos colagens, inventávamos envelopes, um barato! Da proposta de aula foram surgindo grandes amizades, e até hoje considero as pessoas dessa época como verdadeiras amigas! 
     Mas dentre todas as pessoas, teve uma da qual me aproximei mais. E as cartas permaneceram, mesmo depois que o projeto da aula acabou. 
     Nessas cartas revelávamos o que tinha de mais feio e mais bonito dentro de nós. Por elas compartilhávamos tudo: dúvidas, angústias, alegrias, brigas por namorados, problemas de família.
     Lembro bem da primeira carta que escrevi para ela, falando sobre um assunto que sabia que era delicado. Tive medo. Mas recebi uma resposta sincera. E construímos uma amizade verdadeira, do tipo que tem o compromisso de nunca mentir (MESMO, de jeito nenhum!), de não termos segredos (inclusive quando eles são dos outros! Ahahahh), de estarmos juntas, sempre. 
     E assim o fizemos nos últimos 18 anos. Foram mais de 300 cartas na época da escola, de cada uma!!!! Tinha carta com todo tipo de envelope, carta de metro, cartas “Você Decide” (se lembram daquele programa brega da TV? Pois é, replicávamos ele com finais para situações complexas de nossas vidas! Rss...), cartas que viraram livro. 
    
PASMEM: ... embora nos encontrássemos, nos falássemos por telefone, já aconteceu de escrevermos mais de uma carta num mesmo dia! E a grande maioria delas entregávamos em mãos! Tinha gente que até começou a suspeitar que tínhamos outro tipo de relação! AHHHH... como as pessoas tem dificuldade em entender o amor! 
     Depois o nosso caminho diário foi se distanciando, não éramos mais siamesas, como alguns nos chamavam... Fomos para universidades diferentes, começamos a trabalhar, desencalhamos, e as cartas foram diminuindo, mas não a presença e o amor. Mesmo quando ela foi morar longe, lá num outro país (e eu a xinguei muitas vezes por causa disso), as cartas viraram e-mails e cartões postais. 

     E um dia ela voltou. Voltou a tempo de ver minha primeira filha nascer. A tempo de se tornar sua madrinha. E no último ano nos tornamos mães na mesma época. E, eu, madrinha de sua filha.

      E no meu último aniversário, esse ano, o presente que mais gostei foi ter recebido novamente uma carta sua... E mais especial ainda que isso: minha filha, acabou de receber, em seu aniversário de 3 anos, sua primeira carta, dela!

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