Salgueiro Chorão

     

 

      Esses dias, estudando um material para discussão em grupo, li uma mensagem que nem era nova, mas me tocou de forma diferente. Ela dizia que quando nomeamos as coisas, elas perdem a força dentro da gente. Deve ser por isso que, apesar de alguns assuntos serem tão difíceis de conversar (ou escrever), depois que falamos, nos sentimos incomparavelmente mais leves.
     Tenho pensado em quais assuntos abordar por aqui, nesse que é um blog intimamente relacionado à maternidade, naquele que é considerado “o mês das mães”. Há alguns posts em construção, e racionalmente acho que eles deveriam “entrar na roda” por agora, mas algo me incomoda internamente. Estou irritada, impaciente, estressada... Então vou tentar nomear, porque assim, talvez, isso ajude a aliviar... 
     Ao ficar pensando muito em TER QUE escrever algo especial para o dia das mães me lembrei de uma história...
     Há uns 10 anos atrás, fomos a uma churrascaria, a família toda comemorar o dia dos pais. Meu pai, como bom gaúcho, que adora churrasco, e como pessoa animada, que adora comemorações, estava todo feliz, naquele que era seu segundo dia dos pais como avô (minha sobrinha já estava mais interativa, com pouco mais de1 ano...). 
     Nos deparamos com uma fila gigante, e um tempo “bom” de espera (confesso, acho ideia de jerico comemorar essas datas em locais assim: muita gente, muita espera, preço alto, e atendimento que faz com que você coma rápido para o próximo cliente ocupar o lugar.... enfim...!). Assim que conseguimos sentar, felizes, meu pai fez um comentário sobre ser dia dos pais para um dos primeiros garçons que nos atendeu... algo tranquilo, obvio, tipo assim: “estamos comemorando o dia dos pais” ... E eis que depois desse comentário, o garçom olhou para meu pai e disse: “só vocês, porque, eu, perdi meu pai lá no sul tem uma semana!” ... ... ... Só reticências mesmo pra resumir o climão na hora, não me lembro de mais nada depois disso, porque, é claro, aquilo foi tão forte pra mim, que não saiu da minha cabeça a ponto de deixar outra coisa entrar. 
     Então, pois é, essa história me veio à mente quando estava tentando encontrar o que estava sentindo. Morte não combina com comemoração. Morte é algo que incomoda, que deixa a gente sem saber o que fazer. Quem fica à vontade quando vai a um velório, seja de parente ou mesmo conhecido? Bom, eu, particularmente, nunca soube o que dizer... Dar os pêsames? Putz, essa palavra, hão de concordar, é horrorosa! Rss... Dizer que sente muito?! Claro, muitas vezes a gente sente mesmo, mas sempre me pareceu algo falso para ser dito... Tá vendo, não é fácil! 
     Quando penso na morte da minha mãe, tendo a classificá-la como “de repente”. Tinha falado com ela na hora do almoço, e estava tudo bem, comentamos sobre o aniversário dos meus filhos que estava chegando, conversamos sobre coisas aleatórias... E, no mesmo dia, meu pai me liga pouco antes da meia noite dizendo que eles tinham acabado de chegar ao hospital, e que ela estava na UTI. Cheguei lá uns 5 minutos depois disso, logo veio uma enfermeira dizendo que a situação era muito séria, e, depois de um tempo que pareceu interminável, mas que não deve ter dado meia hora, a mesma moça voltou, com uma cara de não sei o quê, para dar “a notícia”. Não, nem eles que lidam com isso frequentemente no hospital não sabem o que fazer. Até os enfermeiros choravam, especialmente depois que eu e minha irmã chamamos meu pai, que não estava ao nosso lado no exato momento, para conversar. 
     Interessante, porque quando as pessoas perguntam o que aconteceu com a minha mãe, conto que ela teve uma parada cardíaca e eles perguntam: nossa, mas ela estava doente? Bom, pra morrer, racionalmente, achava que não. Mas quando é que a gente acha que sim? Na verdade minha mãe estava mesmo muito debilitada, mas a força dela era tamanha, que eu acho que nunca abriu espaço para pensarmos que isso fosse acontecer um dia, ainda mais assim, mês retrasado, de uma hora para outra. 
     Morrer assim, de uma hora para outra, é difícil. A sensação que fico é de não ter tido tempo de despedir, de que ela foi embora antes da festa acabar, sabe?! Mas fico aqui pensando: morrer depois de um longo e doloroso processo de enfermidade, seria mais fácil?! Não sei, morrer É simplesmente difícil.  
     Sem contar a parte burocrática do morrer. Minha mãe faleceu pouco depois da meia-noite, e conseguimos liberar o seu corpo no hospital já era mais de 5 horas da manhã... e não foi fácil. Taí, outra palavra difícil de ser digerida: a pessoa que você ama, de repente, se transforma em um CORPO. Incomoda quem lê? Não sei, me incomoda ao escrever.  
     Daí, depois disso, você vai até uma funerária escolher o caixão. Tem coisas que só passando para a gente ter noção que existe. Outra palavrinha desconcertante: Caixão. Alguém que nunca passou pela morte de alguém muito próximo já pensou que se escolhe isso? Ah, aí, se você não tem uma vaguinha no cemitério, e tem que comprar uma, precisa escolher no nome de quem colocar... alguém se candidata a ter acesso a um pedaço de terra para enterrar as pessoas? Uhum é preciso também escolher a roupa para enterrar a pessoa, o que quer dizer que você tem que ir até as coisas dela e pensar no que ela gostaria de vestir... Credo, eu nunca pensei em que roupa gostaria de ser enterrada, muito menos na roupa de enterrar alguém, quem por aí já pensou?!  Pois é!...Tudo isso assim, de uma hora para outra. 
     Ah, e a parte burocrática, logo depois, vai longe, e, literalmente, rende, do plano funerário ao inventário (cá pra nós, uma roubalheira danada né?!), e a decisão do que fazer das coisas?! Guardar = apego?!lembrança?!; Desfazer = tentativa de resolver o externo, para tentar resolver o interno!? Sentimento interno de estar desfazendo da memória da pessoa que amamos?! Confuso...
     Sim, já “perdi” pessoas que amava, mas nunca tive que lidar diretamente com tudo isso... Me sinto quase um ET quando digo isso, mas gente, é só eu que não tinha ciência desse mundo fúnebre paralelo?  
     O fato é que algo que eu pensava que era natural, considerando a visão do que é morrer pra mim, de natural, na prática, não tem tido nada. E tenho percebido o quanto isso tem me deixado incomodada. O quanto o que eu “acho que deveria achar” está entrando em conflito aqui dentro com o que eu realmente estou sentindo. 
     E sabe quando eu tenho mais percebido isso? Muitas vezes. 
     Quando chega alguém desavisado e pergunta como é que está minha mãe. Nesses casos, nem sei o que é pior: se a pessoa pede desculpa e não pergunta mais nada (e fica aquele climão! Rs....) ou se a pessoa continua especulando e perguntando, da forma como se pergunta qualquer outra coisa na vida. Mas, ok, ninguém é obrigado a saber... E se me fosse mais natural, porque não falar sobre isso?
     Esses dias uma amiga me perguntou se eu já tinha voltado à casa da minha mãe depois que ela morreu, pois achava que isso seria doloroso. Interessante, já fui lá, muitas vezes, e isso não me abalou. Mas uma outra coisa, inimaginável, tem me incomodado bastante: toda vez que tem minha mãe num assunto, usar o pretérito imperfeito me deixa sem chão... “Ela era, ela falava, ela fazia, tinha, chamava, gostava...”. Só o fato de relatar isso aqui me deixa com “borboletas no estômago”... 
     Outra coisa que tem me incomodado bastante e me deixado em crise é quando ouço minha filha falar, naturalmente, sobre minha mãe. E ela fala naturalmente toda hora... 
     No dia que minha mãe faleceu, depois de chegar em casa quase seis da manhã, tomei um banho e esperei ter alguém para ficar com os meninos para poder ir para o velório. Nisso minha filha acordou, e eu expliquei para ela: “filha, sabe que quando as pessoas vão ficando muito velhinhas, elas ficam muito cansadas de usar esse corpinho aqui, então, elas morrem e vão para o céu. Foi isso que aconteceu com a vovó Magda essa noite”. Comecei a chorar e ela disse: “Mas mamãe, porque você está chorando? Você já não explicou que a gente morre e depois a gente volta? A vovó vai voltar!” Expliquei que estava chorando porque ia ficar com saudade da vovó, porque a gente voltava, mas demorava MUITO tempo. Para ela foi suficiente.
     Levamos nossos filhos ao velório, logo antes de terminar. Lá expliquei para minha filha que apenas o corpinho, que não estava mais bom pra vovó usar, estava lá dentro do caixão (que permaneceu fechado todo o tempo), porque a vovó, agora, estava no céu e não precisava mais dele. Foi algo ok. Também levamos as crianças ao enterro, e lá, estávamos todos tranquilos, mas ela, ela chorou, um choro doído, com cara de despedida, que me fez acreditar que ela entendeu exatamente o que estava acontecendo. 
     Mas, depois disso, tudo tem sido bem natural. Nunca planejei levar ou não meus filhos a um velório. É outra coisa que mostra a nossa dificuldade em lidar com tudo isso. Pelo menos uma coisa eu percebi: a forma como foi, não deixou minha filha traumatizada ou coisa do tipo, pelo contrário, acho que contribuiu bastante para que ela tenha a visão de que a morte é um processo triste, de despedida, mas natural em nossa vida.
     E ela? Ela se refere à minha mãe muitas vezes, do seu jeito infantil, e, claro, bem natural. Tipo, me corrigindo: “Mamãe, não é a casa da vovó, ela não mora mais lá, é a casa vovô”! E outra hora: “Mamãe, quem vai brigar com a gente se a gente fizer muita bagunça, vai ter que ser o vovô, porque a vovó morreu, né?! E por aí, vai, pelo menos umas três dessas na semana... Por um lado fico feliz: espero que não se esqueça dela, já que é bem pequena. Por outro lado, sempre quando ela fala, vem o incomodo. Por que? ...
     No fundo, no fundo, porque cada uma dessas coisas faz a “ficha cair”, mexe com tudo que está aqui, e eu acho que deve levar tempo para tudo isso melhorar... é o que dizem! Rsss... Mas eu, claro, como muitos por aí, queria isso hoje, agora, pra já! Taí, acho que descobri a fonte da minha atual contrariedade, com os outros, com as coisas, com a vida... Acho que é reflexo da minha intolerância com a minha própria dor... 
     Andei aprendendo que reconhecer é o primeiro passo para aceitar e transformar as coisas, então, pelo menos, devo estar no caminho... 
     Esse não era o clima planejado para essa semana que antecede o dia das mães, mas meu coração de filha essa semana está, digamos, mais sensível. Então, sinto muito, aquele post especial, que eu achava que tinha que aparecer por aqui, acho que não vai rolar não... 
     Sugiro, para aqueles que tiveram ânimo para ler esse post até aqui, que aproveitem todo esse assunto pesado, de morte, para pensar na vida...   E eu, por aqui, vou tentando me recuperar em prol de assuntos mais lights! Quem sabe semana que vem? 
 

 “Salgueiro chorão com lágrimas escorrendo; Porque você chora e fica gemendo; Será porque ele lhe deixou um dia; Será porque ficar aqui, não mais podia; Em seus galhos ele se balança; E ainda espera a alegria que aquele balançar lhe dava; Em sua sombra abrigo ele encontrou; Imagina que seu sorriso jamais se acabou; Salgueiro chorão pare de chorar; Há algo que poderá lhe consolar; Acha que a morte para sempre os separou; Mas em seu coração para sempre ficou.” 

― Meu Primeiro Amor

 

       Vontade de assistir pela milionésima vez esse filme, agora com a minha filha... Oportunidade extra pra re-re-re-fletir sobre tudo isso: a forma de lidar com a morte, sobre racionalizar ou sentir as coisas, a naturalidade infantil de lidar com a vida ... Ah, interessante, essa árvore, o salgueiro, era a preferida da minha mãe...

 

 

 

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