Quer parir?! Por aqui...Tá difícil!!!

         Eu pari em casa... Tem gente que não quer parir em casa. Tem gente que simplesmente não quer parir! Sim, sim! E quem quer? Vixi, quem quer tá difícil viu!
         Não conheço efetivamente a realidade obstétrica (apenas que a prevalência no Brasil é de cesáreas desnecessárias), mas a minha percepção, pela convivência com mães e grávidas, é que aqui em Uberlândia, parir não está fácil não! Antes fosse pela falta de dilatação, pelas dores do parto, ou qualquer outra coisa do tipo... mas não é!
          Uma pesquisa de outubro do ano passado feita com 40 ginecologistas daqui da cidade, mostrou que 15, ou seja, 37,5%, desses médicos deixaram de atender obstetrícia e restringiram os atendimentos a pacientes para procedimentos ginecológicos.
        Então o primeiro probleminha básico é esse: encontrar um obstetra! Muitos médicos estão deixando de ser obstetras. E os que sobram? Desses, a grande maioria, são cesaristas. A taxa de cesárea do meu convênio para o último período disponível (ano de 2013) foi de 97,5%... Gente, olha que lindo, eu estou entre os 2,5% que consegui parir (meu segundo filho), com uma médica que atendia convênio! Que pena: agora ela está na estatística dos 37,5% que largaram a obstetrícia!
         Ou seja, dos médicos que sobram, e que atendem pelo convênio, poucos acompanham partos naturais (e nem estou falando de parto humanizado não viu?!). Na verdade, em toda a cidade, com seus quase 600 mil habitantes, sei de uma única médica atualmente que acompanha partos naturais hospitalares (humanizados, mas não domiciliares) pelo convênio... Sim, ela está lotada de pacientes, e duvido que permaneça pegando todas as gestantes que aparecerem... é humanamente impossível!
          Ah, e na verdade, apesar de atender pelo plano de saúde, nem eles sabem disso! Rsss... Digo isso porque quando engravidei pela terceira vez, como fiquei sem obstetra, pedi no atendimento ao consumidor do meu convênio que me indicassem um médico que “fizesse parto normal”. Depois de muita embromação, e de deixarem claro que para eles não existe essa de “parto humanizado”, me deram uma lista com 3 nomes de doutores, na qual a médica que mencionei acima não estava incluída entre os que “fazem um parto vaginal”!
          Na época não sabia dessa médica e entrei em contato com os 3 que me indicaram: todos cobravam taxa de disponibilidade para acompanhar o parto. Um deles, achei interessante a conversa com a secretária:
        - Sim, ele cobra taxa de disponibilidade!

 


       - Quanto? Perguntei.
       - Depende! Disse ela.
       - Depende do que?! Eu falei.
       - Ah, só com o doutor... eu não posso informar!
       - Tenho que pagar consulta só para saber? Insisti!
       - Sim!
              ... Pois é! Ou seja, nenhum dos médicos indicados, efetivamente atendiam, no momento do parto, pelo convênio... Aliás, apesar de terem sido indicados e cobrarem disponibilidade, somente com um deles eu já ouvi falar de alguém que pariu! Nos outros dois, em todas as histórias que tive notícia, ocorreu um daqueles probleminhas básicos: tamanho do bebê/ passando da hora / pressão / cordão / dilatação ... etc. e o parto não evoluiu... mesmo antes das mães entrarem em trabalho de parto! Estranho isso né?!
            E aí? E aí que com esse panorama sobram duas alternativas para conseguir parir. A primeira delas, pagar (e para quem tem plano de saúde, depois brigar pela restituição... e essa briga vai longe!).
            Com exceção da médica que cito no começo desse post, todas as outras que acompanham partos naturais por aqui não atendem convênio... Pausa para esclarecimento: quero deixar claro que não estou criticando os médicos que não atendem convênio ou que cobram a disponibilidade (e verdadeiramente se dispõe a acompanhar as mulheres na hora do parto), já que, pelo pouco que sei, os valores repassados pelos planos de saúde mais do que justificam eles saírem desse sistema!
           Mas mesmo pagando, está difícil! Não conheço meia dúzia de médicas (sendo bem exagerada, porque conhecer, mesmo, conheço só três, e ouvi falar de mais duas!) que acompanham partos naturais, todas elas de forma humanizada, e, dessas, apenas duas acompanham partos em casa. Ou seja, com o tanto de gente que anda se informando e querendo ter um parto feliz, deixar seu bebê “nascer sorrindo”, a demanda sobre essas profissionais, creio eu, deve estar bastante elevada!
           Bom, mas e para quem não tem grana para pagar? Resta a segunda opção: o sistema público. Lá é possível parir! Já ouvi vários relatos de partos, tanto no Hospital Municipal da cidade, quanto do Hospital Universitário, de partos naturais... e “humanizados”!
           Mas nas duas situações, se a ideia é um parto humanizado, ainda assim é preciso rezar... Nesse segundo caso, como a proposta humanizada ainda está caminhando no sistema público, pelo pouco que ouvi, é preciso rezar para que a equipe de plantão esteja no esquema!
          No primeiro caso, se o parto pago for hospitalar, como não se pode hoje contar com hospitais comprometidos oficialmente com a humanização do parto em Uberlândia, é preciso rezar... E muito, para muitas coisas! Rezar para dar sorte de ter uma equipe de plantão “gente boa” para a gestante não ter que ir direto para o centro cirúrgico (parir no quarto, hoje, já não é opção por aqui, mas pior que ter que parir no centro cirúrgico, deve ser ter que passar horas em trabalho de parto por lá, sem chuveiro, sem piscina, sem bola, sem doula?!), rezar para ter um pediatra flexível de plantão (que não vá aspirar automaticamente o bebê, nem submetê-lo desnecessariamente a uma série de outros procedimentos, e leva-lo lá diretamente para o berçário, bem longe da mãe!), rezar para encontrar um anestesista “bonzinho” (para não dizer outra coisa!) caso uma cesárea seja necessária na última hora!
           Sim, já ouvi relatos de mulher que não teve nem a oportunidade de ser avaliada antes de ir para o centro cirúrgico, de mulher que teve que ficar em trabalho de parto no pronto atendimento... Verdadeiras heroínas aquelas que conseguem, depois disso tudo, não ceder a cesárea! E quando elas não “dão conta” (para mim, verdadeiro milagre aquelas que dão!), já ouvi caso de mulher que foi esculhambada pelo anestesista quando o parto não evoluiu e acabou em cesárea! ... Sim, ainda que as obstetras se esforcem para que o melhor aconteça, nem tudo depende delas! Haja reza!
           Como eu disse, sem muito conhecimento de causa, imagino que no sistema público os santos andam tendo menos trabalho em atender as orações, do que driblar todos esses “contratempos” do sistema privado!
            É, a vida das “grávidas conscientes” por aqui não anda nada fácil... E depois eu ainda ouço que para parir em casa é preciso ter coragem! Rsss... Coragem é contar com a sorte ao se submeter a todo o sistema imposto atualmente... NA HORA DE PARIR!
             Coragem ou falta de grana né, já que parto humanizado super vale a pena, mas se não for pelo SUS, não é barato!... Mas esse é assunto para outro post!

 

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