Porque também é preciso falar sobre morrer...

      Pouco mais de 40 dias depois do nosso parto... Estou ensaiando aqui para escrever durante esse tempo, muitos assuntos vieram e foram embora... mas depois da intensidade do nascimento do Ulisses, acho que precisava desse tempo para voltar a postar... 
Depois do nosso parto, muitos perguntaram, uns mais discretamente, outros nem tanto, o que tinha dado das alterações dos exames que tivemos durante a gestação... Sim, Ulisses nasceu bem, e a avaliação diagnóstica é de que ele é uma criança “normal”. Mas hoje o assunto não é esse... A questão é que todo esse processo, me fez refletir muito sobre quando as coisas não saem como a gente espera...
          Cerca de um mês antes do Ulisses nascer, fiquei sabendo da história de uma mãe que tinha acabado de perder sua filha, logo após um nascimento prematuro. Era a segunda vez que acontecia na mesma família! Aquilo mexeu muito comigo naquele momento e pedi para que ela me autorizasse a publicar sua história. Eu nunca tinha ouvido falar do motivo pelo qual ela tinha voltado para casa, as duas vezes, sem estar com os seus bebês no colo. Achei que seria importante divulgar, talvez ajudasse outras mães... Ela autorizou, me enviou o relato, mas naquele momento, prestes a dar a luz, eu simplesmente não consegui publicar a história, que agora vocês podem ver ao final desse post... 
          Várias são as histórias de pessoas conhecidas que perderam seus filhos durante a gestação ou logo após o nascimento... 
            A morte mexe muito com a gente, e falar sobre isso não é algo tranquilo... Se é difícil “processar” a morte de uma pessoa mais velha, doente, o que parece ser o caminho natural das coisas, nem imagino como deve ser lidar com esse processo num momento em que era para ser de total alegria e vida, que é o momento da gestação e nascimento de um bebê... As pessoas fogem do assunto, a gente escolhe as palavras, e fica sempre aquele sentimento de não saber o que dizer... O fato é que conversar sobre isso, compartilhar, ajuda muito... Sim, a cada post que compartilhei aqui sobre a morte da minha mãe, contribuiu para que eu tivesse um pouco mais de compreensão sobre a minha família, sobre a minha vida, sobre morrer ... e nascer! 
            Esse foi o caminho que encontrei, mas outros caminhos se abrem nesse sentido, e eu fico feliz em divulgar.   Ao passear pelas redes sociais, me deparei com uma mensagem compartilhada por uma amiga... Um vídeo apresentando um projeto: “O Segundo Sol”! E quando cliquei e comecei a ler estava lá: “Olá, Aqui estamos. Sejam bem vindos ao projeto O Segundo Sol. Passados 6 meses do falecimento de nosso filho, Miguel...” Na hora voltei no tempo...Miguel?! Sim, há mais ou menos 6 meses, recebi a mensagem de uma amiga, pedindo orações por uma família que acabara de perder o bebê... E foi por essa amiga que tive acesso a um relato lindo e sereno, escrito pelo pai do bebê, o pai do Miguel, para dar a noticia à família e aos amigos. A mensagem era tão linda, que salvei...  Quando vi o projeto imediatamente lembrei da mensagem... sim, era o mesmo Miguel!  Compartilho aqui o relato, e o projeto... espero que possa ajudar, não apenas outros pais, mas também todas as pessoas, que amam essas famílias e essas criaturas especiais, que passam ligeiro por essa existência, mas deixam muito amor e, sobretudo, a oportunidade de muito aprendizado para todos que tiveram a chance de sentirem as suas presenças!

 (Clique na imagem para saber mais...!)

 

O relato do pai do Miguel...
"As últimas 24 horas foram as mais difíceis da minha vida e da Rafa também. Aos que ainda não estão cientes, perdemos o Miguel.… Não existe jeito fácil de contar isso a não ser assim: sem rodeios. Foi assim que recebi essa notícia também. Ontem, dia 06 de novembro, Miguel completava exatas 40 semanas e se preparava para vir ao mundo. Por uma vontade maior isso não foi possível. Descobrimos na última consulta pré-natal. O quanto imaginarem que essa notícia doeu eu posso dizer, foi pior. Infelizmente essa é a verdade. Não quero aqui expor a intimidade desse momento. Mas é que falamos sobre tanta coisa aqui. Muitos de vocês de alguma maneira acompanharam a nossa gravidez e, até mesmo em termos práticos, esse é o jeito mais eficiente de contar tudo. Quero com este post deixar um imenso e gigantesco obrigado. Apenas isso. A incontável quantidade de mensagens que eu e Rafa recebemos nos abraçou com muito carinho. Muitas delas começavam da mesma maneira: “Eu não tenho palavras para expressar o quanto sinto pela sua perda…”. Muitas delas diziam que as palavras não aplacariam a nossa dor. Meus amigos, eu quero dizer a todos vocês que foram justamente essas mensagens que nos sustentaram. A cada nova mensagem de carinho, força, afeto, podíamos continuar o dia em busca de fechar este ciclo. Realizar este parto de despedida. A vocês, o nosso mais sincero obrigado. Graças a vocês nos sentimos abraçados e amparados. … Todo esse processo tem sido intenso e, sim, fica uma lacuna gigantesca aqui dentro. Estamos lidando com as duas grandes questões da nossa existência aqui: De onde viemos e para onde vamos. Tudo isso de uma vez. Nessas horas a gente se pergunta: Como é que eu vou seguir em frente? Como, afinal, eu vou levantar da cama amanhã e seguir a minha vida? E a verdade é que não existe uma fórmula de bolo. Aqui dentro no nosso íntimo escolhemos apenas aceitar. E isso basta. Aceitar que existem coisas que não dependem de quanto dinheiro você tem no banco, qual será o hospital ou a marca da roupinha do neném. Existem coisas que simplesmente não pertencem ao nosso controle. E é assim que a vida é. Do lado de cá nós escolhemos aqui aceitar todas as mudanças lindas e maravilhosas que vivemos nos últimos nove meses. Escolhemos dizer obrigado a esse espírito maravilhoso que veio para nos unir e tão logo o fez já retornou ao seu plano. Escolhemos olhar para as fotos não com a dor daquilo que perdemos, mas com a certeza daquilo que ganhamos. E eu posso dizer: Miguel nos encheu de amor. A sua partida é abrupta, inesperada e nos tira o fôlego. Mas também nos aproxima da nossa natureza e nos coloca frente a frente com a nossa missão aqui neste plano: evoluir. Estamos vivendo o nosso luto. Estamos vivendo com toda a intensidade a dor dessa perda. Mas se tem algo que eu possa dizer a todos vocês é: nada é por acaso. A dor está aqui. Mas a esperança também. É preciso morrer para renascer em p"A tarde vai caindo vazia e nítida, mas amanhã é um novo dia. Tenho a  absoluta certeza de que toda a assistência que estamos recebendo dos nossos entes e da espiritualidade vai trazer à tona o que temos de melhor: o amor da nossa família para preencher esse vazio. Como diz a música: The sun is the same in relative way, but you’re other. Amanhã saberemos. Amanhã o sol nascerá para uma nova verdade e toda essa dor será a grande força da nossa transformação. Mais uma vez obrigado a todas as vigílias, preces e egregoras do bem que tem canalizado tanta positividade a nós. Tenham a certeza que sentimos cada vibração. Um obrigado especial aos três anjos que nos acompanharam nessa despedida: nossa doula e aos médicos que nos assistiram. A nossa mensagem final a todos é: tenham fé, acreditem em algo e se entreguem. Não desanimem nunca. Porque do lado cá nós não vamos desanimar nunca também. All you need is love. Amanhã é um novo dia. Fabricio e Rafa"

O depoimento de Bruna, mãe da Letícia e da Larissa.
"Tenho 24 anos, mãe de dois anjos, minha primeira filha nasceu dia 20/07/2012 morta, com 33s, disseram a meu marido que foi sufocamento pelo cordão, acreditamos. Engravidei novamente. Na quarta feira, dia 28/01/2015 passei mal, não enxergava direito, procurei o médico, minha pressão tava 200x150, estava com 32s, ele me encaminhou urgente pro hospital onde eu fazia o pré-natal, hospital de referência onde eu havia ganhado o parto humanizado, contanto que minha gestação não evoluísse pra de risco. Chegando lá fiz uma ultra, na verdade 3, tinha algo errado... minha bebê tinha o tamanho de um bebê de 28s e 5d e eu estava com 32s. Rapidamente descobriram do que se tratava, pré eclampsia grave e hellp, fui encaminhada para cirurgia, meu marido sempre do meu lado. A cirurgia foi um sucesso, dia 29/01/2015 às 05:58 am, minha filha nasceu bem, nem precisou ir pro oxigênio, e assim foi por 4 dias. No 5º dia de sua vidinha ela foi pra UTI, complicações respiratórias. Foi o dia mais difícil de todos, cada vez que eu ia vê-la tava rodeada de médicos, e nesse dia ela se foi, infecção generalizada. E assim estou, agradecida a Deus pelos 5 dias mais lindos e mais angustiantes da minha vida. Grata também ao hospital, que proporcionou isso. Eles deixaram tudo o mais humanizado possível, meu marido do meu lado antes, durante e depois do parto. Só não ficou na UTI comigo, mas ficou ao lado da nossa filha no berçário. Não esqueço a frase da médica que fez a cirurgia: hoje eu vou pra casa feliz. Ela havia salvado duas vidas. Toda equipe médica com um carinho enorme. Sempre me emocionava quando ia ao berçário e via o carinho com que cuidavam da minha filha e dos outros bebês também. E a atenção que recebi logo que minha filha morreu, a possibilidade de o meu marido permanecer ao meu lado em todo tempo nessas horas tão difíceis, a comemoração das enfermeiras cada vez que minha pressão baixava, os doutores da alegria . Tudo isso faz com que eu seja grata por toda vida! É isso, mais uma vez volto pra casa sem meu bebê, mas dessa vez com o coração um pouco mais leve, eles me proporcionaram a maior alegria que eu já tive: ouvir o chorinho da minha filha!"

 

A síndrome HELLP é uma complicação grave da pré-eclâmpsia que determina aumento de morbidade e mortalidade maternas e perinatais. HELLP é a sigla usada para descrever a condição de paciente com pré-eclâmpsia grave que apresenta hemólise (H), níveis elevados de enzimas hepáticas (EL) e contagem baixa de plaquetas (LP).” Referência para maiores informações: PERACOLI, José C. et al . Síndrome HELLP recorrente: relato de dois casos. Rev. Bras. Ginecol. Obstet.,  Rio de Janeiro ,  v. 20, n. 3, p. 165-167, Apr.  1998 .   Disponível em<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-72031998000300008&lng=en&nrm=iso>. 

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