Finalmente nosso relato de parto... E nasce Ulisses!

        Depois do nosso chamado, foi preciso ainda alguns dias para Ulisses querer chegar. Estava esperando a piscina, comprada pouco mais de duas horas antes do trabalho de parto iniciar. Esperando a noite, enquanto seus irmãos dormiam, e a penumbra tornava tudo mais mágico. Esperando ser sexta para sábado, para amanhecer em um dia tranquilo, sem compromissos. Esperando o sábado de Iemanjá, para vir, navegando de mansinho, meu peixinho, nadando de dentro para fora, de um mundo para outro, do meu ventre para meus braços...
         E foi assim, com 41 semanas e 1 dia, meu terceiro parto: mais perfeito do que poderia ter sido idealizado, um parto sagrado! 

         No físico, sem muita diferença em relação ao do meu segundo filho. Um começo com contrações leves, daquelas que faz a gente pensar: “será que é isso mesmo?!”, mas no fundo a sensação boa de quem sabia, lá dentro, que tudo já estava acontecendo.
         E uma ligação para doula, outra para médica, e a preparação novamente do altar, do som ligado com as músicas que foram chegando durante a gestação e compondo a trilha sonora desse nosso momento. 
        Irmãos mais velhos na cama e avaliação da enfermeira obstetra, que chegou e partiu, duas horas depois dos primeiros sinais, com a constatação que sim, já estávamos com 4 para 5 centímetros de dilatação. Tudo tão tranquilo a ponto de nos permitir deitarmos em nossa cama e dormirmos por mais quase 2 horas, sob vigília, na sala, da doula: a companheira nas informações, divagações e até caminhadas no final da gestação.  
         E as contrações voltaram, e com elas veio a médica: a tranquilidade e paciência, aquela do sorriso “de sempre”, do sorriso da serenidade. E para registrar tudo, a fotógrafa: a amiga-invisível do olhar preciso!  E as dores apertaram, e com elas voltou a enfermeira obstetra: linda, a cara da segurança e da competência.
        E o café foi preparado pelo marido, e as contrações se intensificaram, mas descontraíam com a conversa dessas pessoas queridas, desde antes, já amigas “íntimas” (rss...), na minha sala, na minha cozinha.
         E, enquanto isso, meu recanto era o meu sofá, o meu ambiente de flores e velas, a água do meu cálice e a certeza de um ambiente protegido e amparado espiritualmente.
         E nas contrações, revivendo as aulas de yoga, o foco no terceiro olho e a língua no céu da boca, num processo em que a dor era muito mais do que a dor, era movimento: a visualização da carinha do Ulisses do último ultrassom, a sua cabecinha cabeluda e suas bochechas grandes, empurrando, mexendo, descendo, abrindo caminho, querendo sair, querendo chegar! 
         E no momento final, que durou mais de uma hora, mas parece ter durado 5 minutos, a piscina debaixo do chuveiro, a água quente, a quentura do corpo do marido! Ah, o marido que em todos os momentos segurou, abraçou, confortou, amparou e, por fim, recebeu. 
          E foi na banqueta de parto, com a água do meu chuveiro aquecendo e lavando a alma, dentro da água quente da piscina, que a água de dentro, que abrigou e protegeu, deixou revelar uma cabecinha, ainda encapsulada, com um corpinho deslizante que escorregou nos seus 3,7 kg, de dentro de mim para as mãos do marido, de volta para mim.
          E foi assim que uma das músicas que se tornou nossa durante a gestação, a “Dança dos Meninos”, tomou seu significado, quando ele olhou bem para mim, dentro do meu sentimento e tudo de mim, e foi a senha para que eu o sentisse ali, força de um leão, que veio de lá, sem esperar, e chorou, mostrando que queria viver.
          E foi no meu canto para ele que eu pedi “que o eterno sol ilumine todo amor ao seu redor, e que a luz pura interior, brilhe em seu caminho” e o recebi nos meus braços. 
          E foi seu choro que despertou a irmã mais velha, que chegou, acolheu e acalmou o integrante da família que havia finalmente saído da barriga da mamãe. E foi ela quem acordou o irmão, agora também mais velho, para vir conhecer o caçulinha. E na minha cama, no meu quarto, nós cinco passamos a ser uma nova família.
          E a equipe amiga tomou novas funções: a doula esvaziou a piscina, a fotógrafa foi à farmácia, a enfermeira ajudou a limpar a bagunça.
          E foi na minha mesa do café, que todos nós passamos a compor novamente a cena da madrugada, a conversa descontraída preencheu o começo do dia, e eu já vestida, inteira, disposta, sem ter passado por nenhum procedimento, sentei e compartilhei com alegria o começo de uma nova história. 
           Ulisses nasceu no seu tempo, do seu jeito, no nosso lar, que, com certeza, nunca mais será o mesmo. Ulisses nasceu sorrindo e a nossa Odisseia teve mais um capítulo escrito, de respeito, aconchego e ainda muito, muito mais amor!

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