A decisão de parir em casa

           O nosso último post revelou parte das minhas reflexões sobre a possibilidade de receber Ulisses na nossa casa... mas essa não foi uma decisão fácil,  nem tranquila... Eu já participava de um grupo de apoio às gestantes aqui de Uberlândia mesmo antes de engravidar do Ulisses: o Grupo Bom Parto. Durante a minha gravidez, devido ao trabalho e todas as outras coisas, consegui ir a apenas três reuniões não consecutivas, mas em todas elas, “coincidentemente”, o tema foi “Parto Domiciliar”...
          “Ah, então foi isso que te convenceu a ficar em casa?” Não... O primeiro encontro que fui, eram três relatos de mães, nos quais o parto domiciliar havia dado algum tipo de problema, ou sido inviabilizado. Na segunda reunião, uma das médicas obstetras que acompanham o parto domiciliar em Uberlândia se dedicou a falar sobre todas as coisas que poderiam dar errado em um parto em casa, ou seja, foram encontros que, a princípio, poderiam ser bastante desanimadores nesse sentido. 
          Mas o que mais me marcou mesmo foi a terceira reunião que participei, na qual uma enfermeira obstetra apresentou estudos comparativos sobre partos domiciliares e hospitalares. Não, não foram os dados que me impressionaram, apesar de, diferente do que muita gente acredita, haver várias pesquisas que demonstram que partos domiciliares assistidos são tão, ou mais seguros do que partos hospitalares. Foi o que ela disse que me tocou: “Não, nem todos os bebês são viáveis... Independente de nascer em casa ou no hospital, uma parte dos bebês simplesmente não vai sobreviver, e a gente precisa ter consciência disso também.” A primeira coisa que pensei foi: “Nossa, toda vez que eu venho aqui, esse povo só fala de coisa que pode dar “errado”! Rsss... 
         É triste, mas é mesmo assim que as coisas são! Nem sempre elas acontecem como a gente gostaria, seja em casa ou no hospital, e ter consciência disso, através de informação, relatos e outras coisas, só ajuda! 
          Assim, acho que tem duas grandes questões envolvidas em ter um filho em casa (ou em qualquer outro lugar!): responsabilidade e fé! Como assim?!
         No hospital, embora a responsabilidade pelas decisões que cercam a chegada de um novo serzinho seja nossa, pode, muitas vezes, parecer que não é!
     Se hoje alguém visitar uma UTI neonatal, provavelmente vai ter bastante dificuldade para encontrar um bebê que tenha nascido de parto “normal”. Claro, em primeiro lugar, porque hoje em dia os índices de cesáreas são altíssimos. Mas o mais interessante é que, provavelmente, em nenhum dos casos, haverá algum questionamento, nem da atitude dos pais, nem sobre qualquer procedimento que tenha sido realizado no parto que possa ter contribuído para que o bebê tenha ido parar lá... Simplesmente, quando nasce um bebê de cesárea e algo não vai bem, algo não vai bem e é só isso! 
          E no parto normal?! E no parto domiciliar?!  O protagonismo de um nascimento em casa é da mãe, dela e do bebê. Para mim, hoje, uma das grandes diferenças de um parto domiciliar, é que qualquer tipo de assistência (sim, ela existe e é competente!) só será utilizada, se for preciso (e isso também é demonstrado nos estudos!), caso contrário, a equipe estará presente apenas para assistir, literalmente, o parto (e, claro, as condições que a sua própria casa oferece para que o parto seja mais tranquilo, favorecem enormemente a chance da equipe realmente apenas observar!). 
            “Ah, mas é lindo quando dá certo né?!” Sim, é verdade, é lindo quando dá certo... Mas e quando não dá?! Quando algo dá “errado” em um parto normal, automaticamente, o problema já é do parto, claro! Rss... Agora imagina em um parto domiciliar?! Já ouvi tanta história mirabolante em relação aos partos em casa que aconteceram por aqui, que se não conhecesse, em muitos deles, as mães envolvidas nas histórias, dava para achar mesmo que “esse povo do parto humanizado”, tanto pais, quanto equipe médica, é um bando de doidos irresponsáveis! É de rir para não chorar! 
         Desta forma, além de lidar com a ignorância, o preconceito, e a fuga da lógica mercantilista da saúde (sim, cesáreas independente de qualquer outra coisa, com certeza são mais práticas e lucrativas!), lidar com a responsabilidade de um parto em casa, com o “empoderamento” envolvido nessa decisão, pode trazer medo, muito medo, mesmo para quem tem informação!
            E aí que entra a fé: a certeza de que, se estamos fazendo a nossa parte com responsabilidade e amor, podemos ficar tranquilos quanto ao “resultado”, seja ele qual for, mesmo que não seja o resultado que esperávamos e gostaríamos de ter: um parto tranquilo e um bebê vivo, lindo e saudável nos braços! A concretização da passagem para essa vida é sempre algo que envolve o divino, não tem como ter total controle sobre isso, ainda que um hospital e uma cesárea possam parecer oferecê-lo!            Acreditando nisso, fica mais fácil a entrega... afinal, sem ela, será que é possível parir?! Parir com amor?! Pra mim, mais do que perceber isso foi necessário apoio. Porque tem coisas que a gente sabe e acredita internamente, mas se perde no medo do desconhecido e da falta de controle, e ter alguém para lembrá-las pode ser muito, muito importante. E esse apoio que eu precisava, recebi, em uma noite mágica, quando marido e eu tivemos a conversa que precisávamos ter antes de Ulisses chegar... 
        “Você já pariu uma vez”, diriam alguns, “já sabe como é”! Ah, como até agora mesmo eu acreditava nisso?! Uma primeira vez de um parto normal tão tranquilo, sem grande ansiedade pela hora certa, sem ansiedade sobre o que fazer... Tudo tão fácil, porque... o desejo da hora certa girava em torno da disponibilidade da médica, o processo não pensado ficou por conta apenas de ir para o hospital... A coisa toda segura, controlada... Segurança... em mim?! Não, no outro, na médica, no hospital. Fiz parte do processo, ele não era meu. Ufa, a reponsabilidade, achava que também não! Alguma coisa dar errado? Porque pensar nisso se a responsabilidade não era minha?! Tudo tranquilo e em paz. A paz e a tranquilidade da falta de contato... 
 
          E pesando em tudo isso, e buscando uma resposta para o que para mim, no fundo, ainda era indecisão, achei um livro que uma amiga havia me emprestado no início da gestação. Terceiro dia entediante de licença maternidade, sem bebê para cuidar, e fui ler o tal livro! E o tal livro me chocou e me encantou profundamente, e foi ao encontro de tudo que eu estava sentindo.  “Nascer sorrindo”, era o livro...Fantástico, chocante, acho que todas as grávidas, aliás, o mundo todo deveria lê-lo! E quando chego ao seu último capítulo, está lá, na primeira frase: “E chegamos nós também, ao final de uma grande aventura. Felizes aqueles que, como Ulisses... Vamos deixar o bebê. E entregá-lo, por alguns momentos, à mãe (...).” Sim, essa é uma cópia do texto exatamente como está escrito no livro (incluindo a reticências depois de Ulisses!). Estranho, sem sentido, que história era essa de Ulisses? Sim, essa era a única referência feita no livro todo, assim, sem sentido, sem nexo! “Vixe”, achei que a leitura tinha sido tão intensa que já estava era variando! Tive que ler umas 3 vezes... E a vida mostrava, contava, refletia aquilo que tinha que ser... E como a gente ainda duvida, fecha os olhos, procura, na razão, a distinção entre intuição e desejo? 
         E foi na conversa com o marido que essas duas coisas se juntaram. Depois de reconhecer o medo da responsabilidade, do desconhecido. Depois de entrar em contato com o medo que Ulisses estava de vir para esse mundo. O medo era nosso, era dele, e também era meu! Aqui dentro ele estava seguro, protegido, guardado. E eu, em estado de graça por guardar um novo ser. E talvez, ainda, o último pequeno ser que habitará o meu ventre. Porque abrir mão disso?! Não era da dor do parto, o medo. Era o medo do parto, o medo da força da vida. Da vida, da morte, das duas coisas juntas... 
         E novamente as palavras do marido, de encorajamento, de amor, de confiança, de cumplicidade:  “Estamos juntos nessa viagem!”; “A escolha foi NOSSA, minha, sua, dessa criança, da nossa família”. E então a força e a coragem se renovaram! 
         Como é maravilhoso ter um parceiro assim para compartilhar essa jornada! “E tudo tem mostrado pra gente, desde o início, os caminhos para fortalecermos a fé e o sagrado”, marido reforçou!  
         E foi essa também a mensagem do Evangelho para gente naquela noite de orações: “A fé humana e a fé divina”. “A fé é o sentimento inato, no homem, da sua destinação. É a consciência das prodigiosas faculdades que traz em germe no íntimo, a princípio em estado latente, mas que ele deve fazer germinar e crescer, através da sua vontade ativa...Eu vos repito: a fé é humana e divina. Se todas as criaturas encarnadas estivessem suficientemente persuadidas da força que trazem consigo, e se quisessem por a sua vontade a serviço dessa força, seriam capazes de realizar o que até hoje chamais de prodígios, e que é simplesmente senão um desenvolvimento das faculdades humanas.”

           E conectado a tudo isso, a mensagem da caixinha de lembrancinha do Ulisses: “Tome uma atitude
responsável: Mudamos o mundo ao mudar a nós mesmos. Para isso é necessário que sejamos responsáveis. A atitude responsável é altamente potencializadora quando respondemos ao que nos é atribuído, a partir de um centro de confiança e alegria interior. Esse centro transmuta o peso do dever ou de obrigação em leveza e habilidade para responder ao que a vida nos propõe. Agir com responsabilidade é se dar ao prazer de pôr em prática os nossos melhores talentos. Sugestões práticas para uma atitude Responsável:  Assuma total responsabilidade pelo seu bem-estar. Você é uma pessoa muito talentosa; Sinta-se merecedor das magníficas dádivas de Deus; Faça uma lista dos talentos e habilidades que você tem. Reconheça as coisas que mais ama fazer e sinta como é leve o peso da responsabilidade; Veja que direcionamento você quer dar à sua vida. Como você é responsável, toda experiência se transformará em rica aprendizagem”.
            E do altar montado, da presença sagrada, da vela, do incenso, da adaga, das pedras, do cálice... Do que precisa ser esvaziado para ser novamente preenchido. E da docilidade da prece de quem se ama, veio o chamado... O chamado que deu forças para chamar também: venha meu filho!
           E diz o livro “Nascer Sorrindo”: “A criança não se engana. A criança sabe de tudo. Sente tudo. Vê até o fundo do coração. Conhece até a cor de seus pensamentos.” E reconheci: “Sim, Ulisses, tenho medo, mas também tenho amor. Não estamos sozinhos. A escolha é nossa. Prontos? Não sei se com todo esse processo nunca estaremos prontos, ou se sempre estivemos. Sei que a hora é essa! Vamos renascer juntos?!”, chamei! Eu estava pronta para recebê-lo, e então, quando ele também ficou, ele finalmente chegou!...

 

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