Reflexões por um nascer mais sagrado...De antes de Ulisses chegar

                                                                                        “Não é necessário sair de casa.
                                                                       Permaneça em sua mesa e ouça.
                                                                       Não apenas ouça, mas espere.
                                                                       Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
                                                                       Então o mundo se apresentará desmascarado.
                                                                       Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés”.
                                                                                                                                         Franz Kafka


          Perda de líquido, uma bebê, Helena, sentada, e a compreensão de que o parto é escolha da mãe, mas também do filho. Uma cesárea não eletiva com 38 semanas e 4 dias... Muito amor!
          Uma segunda chance, Apolo, um parto “normal” hospitalar, na data prevista. A gratidão à natureza, sensação de ter conseguido, e muitas reflexões sobre como algumas coisas poderiam ter sido diferentes... Outro amor!
          Uma terceira gestação, Ulisses, vivenciada em toda a intensidade e aproveitada em todas as oportunidades de leitura, canto, dança, massagem, pintura, yoga, informação e vivência: um grupo de apoio às gestantes, uma imersão de 3 dias com uma parteira mexicana... E agora, onde e como parir? O que fazer com os outros filhos nesse momento?
          A convivência de um novo círculo de amizades cujas mães, em grande parte, tiveram seus filhos em casa: na sala, na piscina, na banheira, no chuveiro, na rede (e por aí vai!), como uma experiência única e, sobretudo, feliz, e a opção por uma nova médica... difícil defini-la, mas na falta de outra palavra: humanizada! Eis que surge a questão, levantada por muitos: “E aí, você vai ter em casa?”
         Menos de duas semanas antes do parto, uma consulta e muitas reflexões.
         Uma sensação da mão invisível que conduz as coisas da vida que já estão combinadas, definidas; e a necessidade de controle e planejamento abrindo espaço para que tudo se revelasse.          Durante muito tempo estive para escrever um texto sobre porque eu não queria parir em casa. Confesso, só não escrevi, pensava eu, porque achava que seria um desserviço para um movimento que, até certo ponto, eu admirava, embora não compartilhasse. Não, nunca pensei em ter um filho em casa. Nas conversas com o marido, quando entramos nesse assunto, ele me perguntou: “O que te levaria a querer ter um filho em casa?” Não que ele fosse contra, ou a favor (marido aqui é de uma neutralidade completamente irritante para algumas coisas!), mas segundo suas próprias palavras, queria fazer com que eu refletisse sobre o assunto.
          Não, não tinha nada que me atraísse, que me fizesse querer ter um bebê em casa. Não tenho problema com o hospital, gosto de praticidade (pra que sangue, sujeira e placenta esparramados na minha casa e no meu colchão?!), nunca tinha imaginado nem a possibilidade, e muito menos tive vontade de ter os meus outros filhos junto a mim nesse momento... Não, o hospital era uma ótima alternativa para o Ulisses nascer. Opção essa apoiada completamente pela família: “Tá doida menina, como assim ter filho em casa?!” surtava minha irmã nas vezes que eu brinquei sobre o assunto!
           Nas vezes em que parei para pensar a respeito, uma das ideias que me vinha era a preocupação de essa ser uma alternativa somente pelo fato de as pessoas do meu atual convívio pensarem ser mais interessante, ou porque um monte de gente iria criticar (adoro chocar gente chata que não tem nada a ver com a minha vida!), enquanto outras pessoas, provavelmente, iriam achar bem “legal”!
           Mas mais do que isso, a minha preocupação sempre foi o bebê. A ideia de que um bebê precisaria estar no hospital para receber os primeiros socorros no caso de alguma coisa dar errado e de que esse atendimento ser rápido e eficiente teria toda relação com a qualidade de vida que ele pudesse vir a ter. Quando tivemos contato com a alteração da Translucência Nucal do Ulisses, que indicava a possibilidade de ele ter alguma síndrome, nem pensei mais no assunto, afinal, com um bebê que poderia ter problemas, o que justificaria a opção por ficar em casa?
           Depois, pensando melhor sobre o assunto, percebi que a opinião alheia, dando tudo certo ou tudo errado, não me importava nem um pouco. A vida era minha, o filho era “meu” (minha responsabilidade), e ninguém viria aqui cuidar dele pra mim.
           Por outro lado, as questões relacionadas ao bebê ainda rondavam a minha cabeça de forma confusa, a ponto de fazê-la doer... Apesar dos exames normais, a possibilidade de ter algo “errado” com Ulisses, é claro, ainda existia. E mesmo que não existisse, sempre teria chance de acontecer algum imprevisto.
           Mas para que pensar nisso, se estava decidido ir para o hospital?! Estava, mas já tinha um tempinho que meu coração não andava mais tão em paz com essa decisão. Cada dia mais, fui entrando em contato comigo, e nas minhas muitas reflexões (pelo parto do meu segundo filho e pelo meu próprio nascimento), se tornava mais claro que o que eu mais queria era ter um “momento sagrado” para meu filho nascer.
            Há 34 anos atrás, quando nasci, minha mãe me amparou, ela mesma e a enfermeira, na sala de pré-parto. Eu era um bebê prematuro, de apenas 1,8kg. Qual teria sido a diferença, para o meu bem-estar, se minha mãe tivesse ficado em casa? Nenhuma?! Sim, nenhuma, pensava eu, semanas atrás!
           Além dessas reflexões, fui descobrindo, a cada dia, que a experiência com a morte da minha mãe (um ano antes de ter esse terceiro filho), lá, sei lá onde, no atendimento de emergência do hospital, sem que nós pudéssemos nem ter chegado perto, me marcou profundamente... A ideia, tanto de um nascer, quanto um morrer mais sagrado... afinal, nesses momentos, até que ponto a ciência tem a capacidade de mudar o que é para ser?! Racionalmente eu sempre pensei assim, que as coisas acontecem como tem que acontecer, mas passei, recentemente, a sentir isso de forma mais verdadeira.
           Claro, no hospital, a responsabilidade por algo errado não seria minha... Bem mais fácil lidar: eu faria a minha parte, entregaria pro outro, que tem o conhecimento, e faria o melhor possível... E daí?! E daí que assim, desse jeito, a mãe morre e o filho nasce, e é “só isso”! E o momento que poderia ser de gratidão, de compaixão, de entrega, de conexão, de divino, ou, de forma menos romantizada, de trauma (será que ele é maior quando vivenciado do que na imaginação?!), não acontece, vira “só” “morreu”...  ou então “nasceu”!
“Nossa, mas que mulher complicada, tem que ser mais?!”, perguntariam alguns, ou talvez a maioria! Não sei, mas na minha vida, da forma com eu estava sentido as coisas: sim, precisava ser mais! Eu queria mais! Queria tudo isso em casa? Não! Mas infelizmente, pelas informações que tínhamos, os partos hospitalares não estavam tendo nada que favorecesse e valorizasse o sagrado... Pelo contrário, os hospitais estavam cada dia dificultando mais qualquer coisa que pudesse resguardar a experiência da vida (e da morte) das pessoas.
           E aí que, mesmo antes de decidir qualquer coisa, não saía da minha cabeça a necessidade de comprar uma capa impermeável para meu colchão: talvez a bolsa estourasse enquanto eu estivesse dormindo?! E aí que montei um altar para fazer preces e manter a energia da minha casa, mesmo sem pensar racionalmente sobre a possibilidade de ficar por aqui para parir. E aí que uma notícia mais recente sobre a forma como aconteceu um nascimento no Hospital que era a nossa opção virou uma ótima “desculpa” para não querer parir mais lá... E aí que nos colocamos a ver partos em casa com os meninos na TV no fim de semana, e conversamos sobre a ideia do irmãozinho nascer aqui. E aí que, logo em seguida, nossa filha mais velha, de 3 anos já falava como se tivesse certeza de que isso aconteceria... E aí que com 39 semanas e meia de gestação, após conversarmos muito, decidimos ficar em casa!
          Marido sempre alertou: “ficar em casa não pode ser falta de opção”. Ao pensar sobre isso, a ideia ainda me incomodava e minha cabeça doía. Sim, eu ainda preferia um hospital, mas o hospital que eu queria, não existia por aqui, estava completamente idealizado, e se tem uma coisa que acho que não combina com idealização é parto...
           Essa passou a ser, então, a nossa decisão, enquanto eu buscava a conexão com o que eu acreditava de mais profundo, para que ela pudesse ser fortalecida dentro de mim naquele momento, a ponto de ser transmitida para Ulisses, e ele pudesse se sentir seguro e amparado para aparecer por aqui...

 

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