O relato do parto do Ulisses...

      Não tem como escrever o relato de parto do Ulisses sem antes escrever um pouco sobre os meus outros dois partos. Porque? Porque acho que tudo que vivenciamos em sua chegada foi graças a um processo de aprendizado, ao longo desses quatro anos de maternidade.
        Nunca pensei em fazer uma cesárea. Isso nunca tinha passado pela minha cabeça.         Meus irmãos nasceram, eu nasci, de uma forma tão natural pelo que minha mãe contava, que parir era isso: o menino nascia e pronto!
        E quando estava com mais de 30 semanas na minha primeira gestação, a notícia de que Helena estava pélvica. Hein?! Sentada! Sim, ela estava sentada. Mas ainda dava tempo de virar... E foi hidroginástica, natação, posições e exercícios para que isso acontecesse.
        A médica não fazia parto pélvico, mas avisou que sabia que tinha médicos que faziam, ou então faziam versão do bebê, que ficássemos a vontade se quiséssemos procurar essa alternativa. Não quisemos. A reflexão era de que o processo do nascer não era só meu, mas também do bebê. E assim foi!
        Sim, houve frustração, muita. Ainda mais quando, com pouco mais de 38 semanas, eu achava que estava perdendo líquido (sim, algo escorria constantemente, e eu tinha certeza que não era xixi!) o que foi constado em um ultrassom e deu origem ao meu primeiro parto, uma cesárea, com 38 semanas e 4 dias... Cedo demais, sem dor, sem bolsa rompendo, sem nada do que para mim seria natural. Um parto tranquilo, no qual Helena nasceu ótima. Ok, quase morri de dor depois, porque tive reação aos medicamentos e precisei suspender o uso de quase tudo... Um horror! Mas ao mesmo tempo um processo que me trouxe a minha menina, e me tornou mãe... Era isso que mais importava!
         Segunda gestação e a médica, que já não exercia mais a obstetrícia, decidiu nos acompanhar, como tínhamos combinado, depois da cesárea. Nossa, isso já era quase ganhar na loteria: uma médica que acompanha partos normais e ainda depois de uma cesárea é raridade hoje em dia!
         Confesso, procurei não criar expectativa. O combinado era que ela me acompanharia depois da cesárea, em um parto normal MESMO, sem intervenções: não induziria e, assim, também não faria a analgesia. Ok, pra mim estava ótimo. Não conversamos sobre maiores detalhes. Eu não me informei. Lembrando que a minha concepção de parir até o meu segundo parto era apenas: o bebê nasce e pronto! Apolo de cabeça para baixo, combinamos de esperar até 41 semanas e caso nada acontecesse, seria feita outra cesárea. Na data prevista entrei em trabalho de parto.
         Com toda a minha falta de consciência do processo, o que posso afirmar é que até tive sorte. Fora o fato de a médica ter rompido a minha bolsa (o que na época eu concordei, afinal, avaliar a cor do líquido me parecia muito importante!) tive sorte de ter chegado ao hospital já com 6cm de dilatação, de ter podido ficar no quarto, só eu e marido quase todo o tempo até os 10cm e só então ter ido para o centro cirúrgico, sorte até de ter podido comer nesse intervalo. Parece pouco, mas com a realidade obstétrica que vivenciamos hoje, quem acompanha sabe que tudo isso não é o mais comum!
         Mas... Maldito centro cirúrgico: enfermeiros que eu nunca tinha visto na vida, nenhum lugar nem para apoiar quando vinham as contrações... A médica ainda tentou ajudar: forrou o chão e disse que amparava o bebê, se eu quisesse ficar por ali. Mas como?! O marido tentava apoiar, mas era tudo sem jeito demais. Pedi para deitar na maca... Maldita maca: as contrações diminuíram o ritmo, mas não a intensidade. Apolo empacou, não descia. Um período expulsivo longo, sofrido, um calor do inferno... Pedi a episio... “Corta, que ajuda a sair”. A médica ainda alertou: “Não, não ajuda...” Eu insisti, ela cortou! A médica tranquila, me estimulando, eu esperando Apolo nascer, todo mundo parado, olhando! Uma raiva de tudo aquilo, até que a médica e a pediatra começaram a me parecer preocupadas... Foi quando me toquei que se EU não fizesse alguma coisa, não ia nascer. Depois disso Apolo “saiu”, rápido, nem sei como (infelizmente!). Outra sorte: sem ter combinado, nem nunca ter visto na vida, a pediatra gracinha colocou ele direto no meu colo, me estimulou a deixá-lo mamar. Eu exausta, doída, ainda tendo que suportar a anestesia e os pontos da episio, confesso: sequer aproveitei a presença do meu filho comigo, fui eu quem pedi para tirarem ele de cima de mim. Ué, e a dor, que diziam que sumia depois de um parto “normal”?!... Não, tudo doía, o corpo, as “partes baixas”, tudo... e assim ficou por um tempo... Nada comparado ao pós-parto da cesárea, mas confesso que saí do hospital jurando que não passaria por “aquilo” daquela forma de novo!
         Ainda assim, depois de tudo isso, meu relato do segundo parto, escrito dois anos atrás, me parece bastante romantizado. O mais importante: sim, Apolo tinha nascido ótimo, e eu tinha parido! Dois sentimentos tomavam conta de mim naquela época: essa sensação de ter conseguido parir... Ah, essa sensação, como ela foi boa! Me senti mais mulher, mais forte, mais tudo depois do parto do Apolo. E a gratidão por ter podido passar por essa experiência. Esses sentimentos, até certo ponto, permanecem, mas a experiência do meu terceiro parto foi tão intensa e diferente...
         O que mudou? A minha concepção do que é parir e nascer, a minha consciência sobre o processo. Sim, tudo é processo. E hoje eu agradeço profundamente aos meus dois primeiros filhos, porque foi por tudo que vivenciei em seus nascimentos, que Ulisses pode chegar da forma como ele chegou!
         Aqui deixo as fotos dos meus três partos. Sim, elas revelam muito desse processo... Minha sensação ao revê-las? 
        As do primeiro parto, confesso, me parte o coração ver Helena sendo tirada daquela forma de mim: sua carinha de indignação enquanto os procedimentos eram realizados com ela, é exatamente a cara de contrariedade que ela tem hoje! E também me entristece ao pensar que tem muito mais gente tendo esse tipo de parto, ainda mais quando ele é uma escolha. 

         As do segundo parto, me trazem um misto de dor e êxito... 

         As do terceiro?! Me parece tentar escrever o indescritível: não, não é mais o menino nasce e pronto! É a consciência da magia e do encantamento do nascer e do parir!

 Fotos de Clarissa Borges Edição: André Morato

 

Como foi que tudo aconteceu? ... Logo mais conto para vocês...!

 

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