Quando eu matei minha mãe...

        Eu me lembro de ter matado minha mãe apenas duas vezes na vida... 
       A primeira delas, ainda na infância, quando eu tinha uns 8 anos de idade. Havíamos chegado de viagem ... Me recordo que tinha uma situação de troca de malas na chegada que tinha deixado minha mãe bastante estressada, e, ao que me lembro, ainda precisava ser resolvida. Eu tinha tarefa de escola para aquele dia. Tarefa de matemática! Sempre fui uma aluna “aplicada” ... seja lá o que essa palavra queira dizer... (Nunca tinha parado pra pensar nisso até agora!...) Bom, a questão é que eu sempre tinha que fazer tudo perfeitamente bem quando se tratava de escola; e assim também era exigido de mim. E lá estava a tarefa de matemática: continhas nas quais, por exigência da escola, as unidades eram escritas com lápis azul, as dezenas de cor laranja e as centenas de cor vermelha... E, ao fazer a tarefa, errei a conta. E o maldito lápis de cor não queria apagar usando o tal do lápis borracha...(ainda existe lápis borracha?). E o lápis rasgou a folha do caderno. E eu chorei...  Minha mãe estressada; eu também! E ela brigou comigo... E, nessa hora, eu a matei! Disse pra ela que não queria mais ter mãe. Tomei uma surra, daquelas que não me lembro de outra igual em minha vida, talvez porque não tenha tido mais nenhuma. Mas foram as palavras da minha mãe naquele dia que me marcaram mais do que as palmadas. Ela disse ok, que não precisava mais ser minha mãe... Não sei se doeu mais nela ou em mim... Não sei se o episodio a marcou, como marcou a minha infância. Sei que, nesse dia, senti arrependimento pelo que falei e, percebi, de forma marcante, a importância que a minha mãe tinha na minha vida...
            A segunda vez que me lembro de ter matado a minha mãe foi mais cômica do que trágica... e eu morri junto, de vergonha! Foi um assassinato assim, tipo bigorna de desenho animado. Já estava na faculdade, segundo período, primeira viagem com a turma. Todos no ônibus, rumo ao Rio de Janeiro... Eis que, depois do veículo já estar com o motor ligado, entra a minha mãe e, em alto e bom tom, lá do começo do corredor do ônibus diz: “Sabrina, vê se não vai sair lá e toma cuidado, porque lá é muito perigoso hein?!”... Resultado: gargalhada geral e um bom tempo ouvindo coreto a respeito... Nessa altura do campeonato, eu já sabia que mãe era assim mesmo, ri junto, e, na verdade, fiquei até feliz por ter uma mãe que se preocupasse comigo!
          Hoje, que era para ser o dia de celebrar mais um ano da vida dela por aqui, se tornou só mais um dia de saudade ... e lembranças... resgatadas aqui depois que li, há dois dias, o texto abaixo na internet...  

 

     "Eu tinha 7 anos quando matei minha mãe pela primeira vez. 
     Eu não queria junto a mim quando chegasse à escola em meu primeiro dia de aula. Eu me achava forte o suficiente para enfrentar os desafios, que a nossa vida iria me trazer. Poucas semanas depois descobri aliviado que ela ainda estava lá, pronta para me defender não somente daqueles garotos brutamontes que me ameaçavam, como das dificuldades intransponíveis da tabuada.
     Quando fiz 14 anos eu a matei novamente. Não a queria me impondo regras ou limites, nem que me impedisse de viver a plenitude dos vôos juvenis. Mas logo no primeiro porre eu felizmente a redescobri viva, foi quando ela não só me curou da ressaca como impediu que eu levasse uma vergonhosa surra de meu pai.
     Aos 18 anos achei que mataria minha mãe definitivamente, sem chances para ressureição. Entrara na faculdade, iria morar em república, faria política estudantil, atividades em que a presença materna não cabia em nenhuma hipótese. Ledo engano. Quando descobri confuso sobre qual rumo seguir voltei à casa materna, único espaço possível de guarida e compreensão.
     Aos 23 anos me dei conta de que a morte materna era possível, apenas requeria lentidão... Foi quando me casei, finquei bandeira de independência e segui viagem. Mas bastou nascer a primeira filha para descobrir que o bicho mãe se transformara numa espécime ainda mais vigoroso chamado avó. Para quem ainda não viveu a experiência, avó e mãe em dose dupla...
     Apesar de tudo continuei acreditando na tese da morte lenta e demorada, e aos poucos fui me sentindo mais distante e autônomo, mesmo que a intervalos regulares ela reaparecesse em minha vida desempenhando papéis importantes e únicos, papéis que somente ela poderia protagonizar... 
     Mas o final dessa história, ao contrário do que eu sempre imaginei, foi ela quem definiu: quando menos esperava, ela decidiu morrer.
     Assim, sem mais, sem menos, sem pedir licença ou permissão, sem data marcada ou ocasião para despedida. Ela simplesmente se foi, deixando a lição de que mães são para sempre. Ao contrário do que sempre imaginei. São elas que decidem o quanto esta eternidade pode durar em vida, e o quanto fica relegado para o etéreo terreno da saudade..."

 

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