Fazer, ou não uma amniocentese...?!

 

“A amniocentese é um exame no qual uma amostra do líquido amniótico é retirada de dentro do útero e examinada em laboratório. Trata-se de um exame diagnóstico, que é capaz de dizer, praticamente com certeza, se o bebê tem ou não síndromes cromossômicas (como a síndrome de Down). Embora a amniocentese seja considerada um exame seguro, trata-se de um procedimento invasivo, que sempre tem riscos: cerca de uma em cada 200 mulheres acaba sofrendo uma infecção ou algum outro tipo de complicação em consequência da amniocentese, que levam à perda do bebê”. 

 

           Muita gente nos acompanha por aqui. Muita gente se mostrou solidário, enternecido, e nem tenho palavras para descrever mais o que, desde que postei por aqui a possibilidade de não ter um filho “normal”, que é o que todo mundo, obviamente, espera e deseja quando pensa, decide ou descobre que vai se tornar pai.
            Toda essa humanidade, de algumas pessoas que eu nem esperava, me comoveu e me deu força.  Mas, no fundo, no fundo, apesar de todo apoio, o fato é que a semana depois da semana da TN foi difícil, de consternação... A chance de 20% de ter um bebê com alguma alteração genética, contra os 80% de o bebê ser geneticamente normal, claro, não serve pra nada... Deve ser por isso que sempre detestei estatística em toda a minha vida acadêmica. Claro... caso se tratasse de ganhar na MegaSena, eu nunca pensaria que os 20% poderiam ser a realidade, mas como não é o caso né!?  Interessante como a cabeça do ser humano funciona...
         Senti tristeza, profunda, daquelas bem doída... Um luto mesmo, pela gestação, porque independente de qualquer resultado, a gravidez esperada – ops... idealizada, já tinha ido pro brejo. A possibilidade de ser a última gestação, uma gravidez sem problema (afinal, o que eu poderia viver de tão diferente?), passou a ser, inclusive questionada.
          Me envergonho de dizer isso, mas meu lado criança mimada, de que “se as coisas não forem do jeito que eu quero, também não quero mais” se manifestou sim, forte, naquele momento. Obvio que a possibilidade de não levar a gestação adiante hora nenhuma passou pela minha cabeça, basicamente porque acredito na vida desde o primeiro instante que ela cresce por aqui, e nunca tive tendências assassinas (porque pra mim, aborto é isso, sim... mas deixemos essa discussão para outra hora!), ainda mais em se tratando de um filho...  
              Mas sim, pensei por algumas vezes: Putz, já tava todo mundo dizendo que eu sou doida de ter três filhos, onde eu fui amarrar a minha égua?! Como diriam outros: “vocês já tem um casal”, inclusive um casal de filhos espertos, inteligente e “perfeitos”... Sim, eu pensei nessas coisas. E num desses momentos, ter ouvido do marido que, sim, a gente desejou ter mais esse filho; não, a nossa família não estava completa sem ele, entre outras coisas, foi muito, muito importante. 
      Depois da frustração inicial veio a angústia pela indecisão sobre fazer ou não a aminiocentese, para descobrir se o bebê tem alguma alteração genética. Nossa primeira decisão foi por fazer, especialmente do marido. Afinal, porque não?! O que é é... e é isso, não?! 
               Não! Logo em seguida eu não estava mais tão segura se queria fazer... 
           O exame é invasivo, mas com pouca chance de acarretar algum problema... Mas como aqui entra, de novo, a maldita estatística, uma das primeiras coisas que pensei foi: poxa, eu adoro estar grávida, eu quero pelo menos curtir a gravidez... Perder o bebê? Não, esse medo nunca me passou pela cabeça: esse bebê veio sim, para ficar, das poucas certezas que eu tenho, essa é uma delas. Mas, imagina, se com dois meninos pequenos eu tivesse que fazer repouso o resto do tempo? Imagina se estivesse tudo bem com bebê e o exame acabasse acarretando algum problema? Foi isso o que o meu coração sentiu.
           Porém, mais do que essas questões, dúvidas existenciais me aporrinhavam: o que seria necessidade de manter-me na ilusão de que tudo está bem, e o que seria uma decisão racional?... Quero uma gravidez tranquila até o fim, ou quero uma gestação cegada, fazendo de conta que esse bebê não tem nada para me poupar até o final?!
         Pensei, pesquisei, e achei uma resposta que, inicialmente, me pareceu internamente sincera: se houvesse uma forma de averiguar se o bebê possui alteração genética que não fosse invasiva, eu faria? A resposta para essa pergunta foi imediatamente: sim!
            Mas só imediatamente. Não que eu tenha encontrado o tal exame... Mas, hoje, não sei mais se a resposta seria essa, porque fiquei pensando em mais um monte de coisas... e, daí, a questão sempre volta para a pergunta chave: eu quero descobrir AGORA se meu filho tem algum problema?! 
            Nesse caso, sinceramente, a resposta é NÃO! Não quero descobrir agora e nem nunca. Tem horas que quando deixo o emocional tomar conta e me desconecto com que eu acredito de mais profundo, me dá vontade é de sair correndo, sumir, desaparecer... Eu iria querer algum dia saber isso? Não... Então como isso não é possível, eu tento me reconectar com as minhas convicções mais profundas... e bora voltar para a vida real! Rss...
            Mas e aí, e a amniocentese?
         Aqui, para a decisão, entram as questões médicas e a famigerada estatística para me dar suporte: o que representaria uma amniocentese positiva, e o que representaria um resultado negativo?
           Uma amniocentese negativa, apesar de excluir a possibilidade de alteração cromossômica, não nos garantiria um bebê saudável (há o que garanta isso?! Rss...). Mesmo que não tenha nenhuma síndrome genética, o fato é que uma TN alterada pode ser sinônimo, por exemplo, de má formação do bebê (muitas vezes cardíacas). Ou seja, um resultado negativo não nos tranquilizaria.
            E o resultado positivo? Marido pensou inicial e rapidamente: pelo menos lidaremos com a realidade, saberemos o que o bebê “tem”...
     De verdade, acho que ter passado grande parte da minha vida, desde a infância, acompanhando, bem de perto, o trabalho da minha irmã como professora em uma instituição de ensino especial, moldou meu ponto de vista, e tornou-o um pouco complexo sobre esse assunto. 
          Primeiro porque alterações genéticas nem sempre recebem um nome específico... Sim, nem sempre a medicina identifica exatamente o que uma criança tem pela contagem cromossômica. Conheço casos de crianças (e as próprias, inclusive!) que se tornaram adolescentes, e até hoje os médicos não conseguiram nomear o que elas tem... 
            Segundo: o que é uma síndrome genética? Dizer que um cromossomozinho infeliz a mais foi criado, ou pregou no lugar errado e dar nome para isso, e que isso traz consigo um conjunto de características/deficiências que essa criança pode vir a ter... Voltemos mais uma vez a estatísticas... “não sei quantos por cento de bebês que tem uma síndrome tal nascem com isso, ou aquilo”,... e por aí vai... 
            Acontece que eu preciso que meu filho seja mais do que probabilidade. Eu tenho uma imaginação horrorosa de fértil, e, para ajudá-la, disponho de uma ferramenta chamada Google... Para que serviria saber se meu filho tem uma síndrome x ou y? Isso definiria o que ele teria? Infelizmente não, apenas o que ele poderia vir a ter. E aqui, é claro, a minha imaginação aliada ao Dr. Google me garantiriam um bebê imaginário com todos os problemas e mais alguns... 
            Além disso, uma síndrome definiria o que meu filho vai ser? Já acompanhei casos de irmãos nascerem com a mesma síndrome (aqui, me desculpem meus amigos estatísticos mais uma vez, mas sei, inclusive, de um caso que é extremamente raro, tipo, uma em 1 milhão, e a mesma mãe ter dois dos filhos com a mesma coisa!) e se desenvolverem de forma completamente diferente... O que eu quero dizer com isso? Que eu não quero cair na tentação de criar limitações para o meu filho antes mesmo dele nascer... 
            Tudo isso fez com que decidíssemos não fazer a amniocentese: não mudaria nada fazer, e poderia, nesse momento, tornar as coisas mais difíceis... Além disso, eu não quero lidar com um “bebê problema imaginário”.  Eu quero ter a oportunidade de me apaixonar pelo “MEU” bebê, esse que vai sair daqui, e que eu vou ter a oportunidade de descobrir quem é e a que veio, com certeza, só com o tempo... Afinal, que filho não é assim?
            Ops, mas peraí... isso não quer dizer que a gente vá viver no “Fantástico Mundo de Bob” até o bebê nascer também não...  E aí? De todo jeito, mesmo que o resultado genético desse negativo, os exames fundamentais, em termos de fazer realmente diferença para esperar a chegada desse bebê, são o ultrassom morfológico, e o ecocardiograma fetal. Por eles teremos a possibilidade de identificar (ou não) problemas de má formação, que podem indicar necessidades de cuidados especiais ao nascer, além de indicar se há alguma restrição para que o nascimento ocorra de forma natural.
            Então... então é isso... essas são as notícias, por enquanto... Quando tivermos novidades (e disposição e coragem para falarmos mais disso... rss...) compartilhamos outras coisas por aqui...

 

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