Doula?!

Me recordo, quando grávida da minha primeira filha, que tinha uma colega de hidroginástica que, ao comentarmos sobre a opção pelo parto normal, ela disse: “Ah, eu vou até procurar uma doula!” Hein, doula?! Fiquei com vergonha de perguntar, fiz cara de paisagem, mudei de assunto, mas, na boa, não tinha a mínima ideia do que era isso! Como sou muito curiosa, assim que cheguei em casa, pesquisei na net, bem rapidinho, tipo Wikipédia, e me dei por satisfeita... Tipo: “ah, é só isso!” e o assunto ficou por aí. Quando o segundinho foi nascer por aqui, já sabia (mais ou menos, ou conceitualmente) o que era uma doula, mas ainda assim, pensei: “eu tenho um marido, superpai, superbom, para que eu vou precisar de uma doula?!” Sim, e nesse segundo parto, o marido foi superpresente, como é em tudo em relação à nossa família: calmo, sereno, confiante, segurou a mão, fez massagem, abanou, esteve lá, inteiro e por completo, para me dar apoio... Todo o apoio que eu precisava? Achava isso até bem pouco tempo atrás, hoje, diria, talvez, que todo o apoio que eu precisava, mas talvez não exatamente todo o apoio que eu poderia ter tido! O que mudou?! Algumas doulas “entraram na minha vida” nos últimos tempos, por diversos motivos, não necessariamente relacionados ao trabalho que elas exercem... O fato é que me aproximei dessas pessoas, e algumas delas se tornaram amigas, que passei a admirar não exatamente pelo trabalho como doula, mas por inúmeras outras questões... Como eu disse, pro meu terceiro parto, até “ontem” estava inclinada a não contratar uma doula. Foi aí que pedi, a uma dessas amigas, para escrever um texto para explicar o que é e para que serve uma doula. Confesso, acho que estava buscando uma forma de ser convencida de que precisava mesmo de uma. O texto chegou! Na verdade, antes dele, toda a turbulência dessa terceira gestação já havia feito com que eu tivesse certeza de que gostaria de ter, nesse momento, e no meu parto, toda a ajuda que puder e estiver disponível. Mas, a bem da verdade, a gente não precisa estar em apuros para ter ajuda, não é mesmo?! Especialmente ao refletir sobre o meu segundo parto, percebo que mais informação, e a presença de uma doula, poderiam sim, ter contribuído muito para que algumas coisas fossem diferentes, e, com certeza, muito melhores... Mas o que já foi é experiência e aprendizado... Então, para que outras pessoas possam ter acesso à informação, e possam fazer suas escolhas de forma mais consciente, segue o texto da Alessandra (minha doula)! " O que uma doula faz? Alessandra Araújo (mãe, psicóloga e doula) Sou doula de formação há dois anos. Descobri o conceito de humanização do parto e nascimento um pouco antes e, portanto, após o nascimento de meus dois filhos por cesáreas desnecessárias... Sim, eu sempre desejei ter parto normal e sim, acabei em cesárea por conta do modo de funcionamento do nosso sistema obstétrico. Na minha época me lembro da minha angústia e conflito quanto ao que lia sobre “as recomendações da Organização Mundial de Saúde para o parto e o bebê” e as orientações, condutas e indicações que recebia dos médicos em relação à gestação, parto e maternidade... Meus filhos nasceram mas minha inquietude continuou, até que as coisas começaram a se revelar para mim... Descobrir o conceito de parto humanizado foi descobrir um novo universo, cheio de possibilidades e muito em sintonia com a minha prática e experiência profissional como psicóloga. Acreditar na força e na capacidade de si, poder assumir sua história, se informar e ser capaz de escolher o seu caminhar... Fazia muito sentido isso tudo dentro de mim. Me aproximei do grupo de profissionais que iniciavam seus trabalhos em Uberlândia, comecei a frequentar os grupos para aprender e porque estar nesse meio me fazia bem... Criei laços e amizades e comecei minha formação como doula. Mas, afinal, o que uma doula faz? Teoricamente a doula é uma profissional que surge para suprir uma necessidade do nosso atual sistema obstétrico (hospitalocêntrico e tecnocrático), que é a falta de apoio e acolhimento para a pessoa que deveria ser o foco das atenções: A Mulher! Pois, no sistema obstétrico tradicional, tudo gira em torno da figura do médico e tudo funciona para servir a esse, os instrumentos, a posição da gestante, o horário da cirurgia, a temperatura e a iluminação do ambiente, etc e tal. Com a realização dos partos nos hospitais e consequentemente a transformação desse evento em um ato médico, nós, mulheres, deixamos de saber sobre parto. Desaprendemos a escutar o corpo, deixamos de reconhecer as fases e o desenrolar de um trabalho de parto e mais ainda, passamos a sentir medo e receio de viver esse momento. Aprendemos a nos sentir impotentes, incapazes, imperfeitas... e acabamos por entregar nossos corpos e nossa alma para um “salvador”. Sim, diante do horror inventado, preferimos fechar os olhos e torcer para que tudo acabar logo, sem sentir, sem participar, sem viver! A doula surge nesse contexto para possibilitar uma nova engrenagem. É uma mulher que se nutre de conhecimento e confiança no corpo feminino e se disponibiliza para estar ao lado da gestante e contribuir para que essa se reaproprie de sua sabedoria e conhecimento perdido. É uma profissão necessária ao contexto, pois a função principal da doula é ENXERGAR a mulher. Enxergar e servir essa mulher, no que ela necessita para enfrentar de forma mais autônoma e amorosa possível esse momento. A doula é uma bengala. Uma bengala que possibilita que a mulher caminhe com suas próprias pernas, que oferece suporte físico e emocional, que dá sustentação... Mas vale ressaltar que uma bengala é só um instrumento que funciona a partir da força e desejo de quem caminha... um bengala não faz o caminhar!!! Quem caminha e escolhe o caminho, nesse caso, deve ser sempre a mulher. Teoricamente, uma doula faz encontros com a gestante durante a gestação para conhecer a mulher, o acompanhante e a família, criar vínculo e fornecer informações e preparar a mulher para o parto e também acompanha todo o parto, dando apoio e suporte para a mulher e acompanhante no que for necessário (a doula orienta, acalma, ajuda a reconhecer os sinais, sugere posições, faz massagens e outras técnicas de alívio da dor, dá água, limpa o chão, enche a banheira, dá comida pro cachorro, conversa com a vizinha que bate na porta para saber se está tudo bem, olha nos olhos, aperta a mão, deixa o casal sozinho para eles curtirem, fica junto, silencia, apoia...). Durante o parto a doula fica à disposição todo o tempo necessário, o tempo que isso durar. Já acompanhei casos à jato, de 3 horas, e outros de 3 dias... tanto faz. Porém, no meu pensar, a doula nem sempre é necessária como presença física (se assim não for solicitado pela mulher), sua função é muito mais como a bengala, que fica ali, do lado, e pode ser acessada quando quiser... Nosso apoio não é exatamente fazer alguma coisa, muito pelo contrário, é dar suporte para que a própria mulher faça, do seu jeito, do seu tempo, no seu ritmo. É acreditar que a mulher até consegue caminhar sozinha, incentivá-la a dar uns passinhos e estimulá-la a encontrar sua força interna. Ser doula é estar aberta ao novo e ao desconhecido. Cada parto é um. Cada parto traz sua magia, sua energia e seu desconhecido. Estar aberto a isso é o grande desafio. Gratidão às mulheres e homens que me escolheram para estar presente num momento tão especial e único em suas vidas. Aprendi muito com cada um e carrego em mim a lembrança viva de cada vida que vi chegar... Me sinto honrada de pensar, trabalhar e ver nascimentos. Nada é mais emocionante que a chegada de um novo ser nessa vida, presenciar um corpo e uma alma sair de um outro corpo e uma outra alma, sentir a vida assim tão intensa e potente."

(Foto de José Neto do trabalho de parto de Juliana em momento passeio com sua bengala!)

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#Doula #Gravidez #PartoHumanizado

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