Dia dos pais...

     

 

     Então... e é dia dos pais! Quase acabando, mas ainda é... 
     Confesso, todo o consumismo aliado à essas datas me deixa meio desanimada. Gosto de fazer cartãozinho, desenhos com as crianças, pensar em alguma coisa diferente para o papai aqui, mas quando penso em sair à rua ou ao shopping nessas datas para achar um presente, me dá uma preguiça danada! 
     Se, aqui em casa, marido fica feliz com as “bobaginhas”, e faz mais questão é delas do que de presente; por outro lado, o vovô adora e faz superquestão, e estava cobrando que precisava ganhar presente já tinha mais de uma semana! 
     Sim, os pais da minha vida são diferentes em muitas coisas... mas hoje vou falar do meu pai. 
     Meu pai foi sempre muito presente. Era ele quem, em casa, brincava de boneca, de casinha, de jogos, e, muitas vezes, levava para passear. Era ele quem mais abraçava, dava beijo, apertava e fazia cócegas. Me lembro de ter me colocado de castigo uma única vez, porque minha mãe mandou: disse que se ele não colocasse, ela colocaria. Se eu levei algumas palmadas da minha mãe, ele não, nunca teve essa atitude. Também nunca era ele quem me mandava parar de brincar para tomar banho, que me exigia boas notas na escola, me cobrava um comportamento exemplar na frente das visitas, ou outras coisas chatas desse tipo. Resumindo: ele sempre foi um pai bom, e, sobretudo bonzinho!
     Fui crescendo e percebendo, também, que ele tinha muito mais facilidade para se abrir do que minha mãe, e isso nos aproximou. Se algo estava errado, ele beirava, beirava, puxava conversa, chegou a chorar algumas vezes ao compartilhar suas insatisfações comigo. Minha mãe não, ficava brava, emburrava, brigava. Resultado: a imagem de um superpai se consolidou ainda mais em mim.
     E essa imagem foi desconstruída apenas há uns 10 anos atrás. Foi aí que percebi efetivamente, que meu pai não era um ser perfeito. O que ele fez? Nadinha! É que, ao crescer, analisar e compreender um pouco mais as relações na minha família, fui enxergando mais meu pai, e todas as suas características. E percebendo o quanto, além de bonzinho, sensível e mais um monte de coisas boas, como toda pessoa, imperfeita, ele é, também, super cabeça-dura, teimoso e por aí vai... 
     Perceber tudo isso não me fez amá-lo menos... E ainda me ajudou, muito! Contribuiu para que eu pudesse compreender mais e julgar bem menos a minha mãe, em diversas situações de conflito. Sem contar o quanto me ajudou a cuidar do meu relacionamento com o marido, considerando o quanto algumas relações inapropriadas, com certeza, tenderiam a ser reproduzidas em minha nova família. 
      Mas 10 anos faz muito tempo, a vida muda, e surgem oportunidades para que a gente perceba sempre coisas novas, nos outros e na gente... 
     Quando minha mãe faleceu, e já tinha quase uma semana que eu não a via, claro, minha primeira sensação foi de culpa, e, com a consciência superpesada pensei: não vou deixar que aconteça o mesmo com o meu pai, não vou passar tanto tempo sem vê-lo!
     E aí?! E aí nada! Eu não ia ver minha mãe todos os dias não era porque eu não queria. Eu não ia ver minha mãe porque eu trabalho, tenho filhos, marido compromissos, porque a rotina da vida nos leva a não ter todo o tempo disponível que gostaríamos para passar ao lado de quem a gente ama... e não é por isso que a gente ama menos. E, sem querer justificar, mas já justificando, eu sempre fui uma filha presente o suficiente para que isso pudesse ser percebido, e, em todas as ocasiões que pude, e não apenas nas datas comemorativas, tentei demonstrar o meu afeto e gratidão.
    Pois é, e assim a vida seguiu, e eu não passei a visitar meu pai mais do que já fazia antes.  Mas recentemente percebi que tinha algo diferente: na verdade minha vontade de ligar “para casa”, de visitar meu pai, tinha era diminuído. E eu percebi que não era porque minha mãe não estava lá. Na verdade, eu estava irritada, muito irritada mesmo... Mas por quê? 
     Porque eu passei a esperar do meu pai, não apenas o que ele já fazia, mas também o papel que era exercido pela minha mãe. Esperava que ele me ligasse todos os dias, como ela fazia. Saber se os meninos estavam se alimentando bem. Se a minha semana de trabalho havia sido cansativa. Aliás, que ele pelo menos desse alguma notícia do meu trabalho, ou de que, sim, eu já terminei o doutorado já tem quase dois anos. 
     Lembram do que eu falei no começo? Quem cobrava as coisas, era minha mãe... mas, por outro lado, era ela que dava mais notícia também!
     E tem mais uma coisa. Toda a situação contribuiu para que meu pai também passasse a esperar, da gente (com certeza mais da minha irmã, porque ela está mais próxima), um pouco da atenção que ele ganhava da minha mãe. Natural isso né!?
     E demorou um bocado de tempo para que eu pudesse perceber o quanto essa minha necessidade de receber, e a dele também, estava me deixando mal. 
    E demorou mais um pouco para eu me convencer, racionalmente, que não tem como, nem porquê cobrar todas essas coisas dele. Fiquei lembrando de mim, rindo da minha mãe, quando ela reclamava, por exemplo, que meu pai não tinha iniciativa para lavar a roupa dele! Poxa, se em mais de 40 anos de casados, ele nunca tinha feito isso, será que agora, com 70 anos, ele iria fazer?!
     Pois é! Eu agora estava fazendo igualzinho! Cobrando (internamente) coisas que meu pai nunca tinha se disposto ou, para ser mais justa, provavelmente sequer pensou que ele poderia fazer... 
     E escrevendo tudo isso aqui, percebo que, o incômodo relatado no começo, não é só com o consumismo da data ou ter que ter saído para comprar presente... 
     E olha que meu mau humor foi tamanho, que o marido ganhou de presente camiseta polo que ele mesmo ajudou a escolher, sem sequer um cartãozinho, uma colagem, ou uma pintura com a barriga, do novo neném (como ele, sutil e delicadamente me cobrou, com razão!). 
    Não, não tive ânimo para criar nada com os meninos. Nem sequer consegui escolher uma fotinha para fazer que nem todo mundo e colocar no Face, para homenagear os papais por aqui... 
     Interessante como, mesmo depois de processar racionalmente, nosso coração ainda demora a internalizar o que a nossa cabeça já se convenceu né?! 
     O dia dos pais?! Ainda acho que um dia só para comemorar e homenagear alguém tão importante não faz muito sentido... Mas, sim, foi bom! 
     Não, o vovô nem percebeu se as crianças comeram direitinho, ou deu notícia de que o neto estava com febre... Mas fiquei muito feliz em tê-lo por aqui, fazendo bem o que sempre fez: dando carinho, brincando, apertando seus netos, exatamente como fazia comigo! 
     Meu pai? Não escolheria outro! As pessoas e as relações não precisam ser perfeitas para serem de puro amor...
     Feliz dia dos Pais?!  Prefiro desejar uma feliz paternidade, sempre, todos os dias, para todos os papais que tem nos visitado por aqui, e claro, para os papais da minha vida, incluindo o sogrão, que eu gosto tanto! 

 

 

 

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