“E agora, quem vai cuidar de mim?”

           Quando eu e marido casamos, decidimos que nós mesmos cuidaríamos da casa, das roupas e de tudo mais: casa nova, coisas novas, queríamos cuidar; tínhamos um apartamento pequeno e, além disso, a incerteza de como ficariam as despesas domésticas. 
          Marido disse que fazia tudo, menos passar roupa. Coisas do tipo: colocar o lixo pra fora e lavar os banheiros ficou com ele. 
          E depois de uma semana em lua de mel, voltamos de viagem com uma mala cheia de roupa suja, que virou um monte de roupa para passar, me rendeu um domingo inteiro de passação, e sei lá quanto tempo de dor nas costas... Pronto, já caía por terra a história de que faríamos tudo: contratamos uma passadeira. 
          Passávamos a semana fora de casa e o ap ficava fechado e limpo. Fim de semana, em geral sábado, arrumávamos a casa. Era suficiente! 
          Com o passar do tempo, eu trabalhando, fazendo doutorado, e terminando a dissertação de um segundo mestrado; marido, que “só trabalhava”, assumiu o sábado da limpeza sozinho, enquanto eu digladiava entre pilhas de textos e provas de alunos. Nesse ponto já deu para notar o quanto eu fui pulando do barco né?! Pelo menos segui a recomendação da minha mãe, que notou desde quando eu era muito nova, que eu não tinha gosto e nem levava jeito pra casa, e dizia, em tom, meio de coreto, meio de preocupação: “Essa menina tem é que estudar muito na vida”... Pois é, pelo menos isso eu fiz! 
          É verdade, eu não gosto mesmo de fazer coisas de casa. Conheço e admiro quem goste! Minha mãe mesmo ADORAVA uma faxina! Por outro lado, diante da peleja do marido, que eu não queria que fosse superexplorado ... Pronto!... Aderimos a faxineira uma vez por semana!  
          Minha mãe liberava a funcionária dela um dia, e nós a pagávamos para ir lá para casa. Parecia bom, especialmente porque a moça era de confiança e ficava o dia sozinha na nossa casa. PARECIA, até que minha mãe, pessoa relativamente curiosa, passou a dar notícia até das calcinhas novas que eu comprava! Rss... Não, a culpa não era da moça: minha mãe especulava tudo, MESMO! 
          Decidimos contratar outra pessoa! 
          Não deu certo...!
          E, por indicação de pessoas do trabalho do marido, uma terceira pessoa apareceu lá em casa. No início ia uma vez por semana. Quando engravidei, logo ao preparar as coisas para o bebê nascer, percebi que não seria suficiente: ela passou um dia todo só passando as roupinhas do bebê. Esse dia? Ela não quis receber de jeito nenhum, disse que era o presente dela pra gente. 
          E a partir de então, tivemos a presença dela em casa duas vezes por semana. 
          No fim do ano passado, ela iria se mudar de cidade. Precisávamos arrumar outra pessoa. Fiz isso enquanto estava de férias, para poder acompanhar mais de perto o início do trabalho aqui em casa. Não estava dando certo... Insistimos... e eu cada dia mais irritada com um monte de coisa... Aí perdi minha mãe. E esse foi o ponto para que todas as emoções contidas viessem à tona, e me fizessem tentar resolver tudo que estava incomodando, inclusive a questão da funcionária! 
          E aí? E aí que a nossa antiga funcionária ainda não tinha ido embora. E ela voltou aqui pra casa. Na semana que minha mãe faleceu. 
          Alguém tem por aí uma funcionária...
          - Que passa os seus lençóis king size, de elástico, de um jeito que parece que você acabou de comprá-los, a tal ponto que você seria capaz de colocá-los de volta naquelas embalagens que eles vêm?
          -  Que fiscaliza a roupa das crianças e não deixa passar uma manchinha sequer: ferve, esfrega, põe de molho, LIMPA!
          - Que arruma as bonecas da sua filha e as coisas de casinha de modo que tudo fique parecendo um showroom de loja de brinquedo?
          - Que passa creminho no seu sofá para ele não ressecar?
           - Que você liga, na saída do trabalho, e, quando vai pedir para que ela arrume a sua filha, porque você precisa levá-la ao dentista dali 15 minutos; recebe como resposta que a filha já lanchou, está de banho tomado, cabelo penteado, e que só está te esperando para escovar os dentes (sem que você tivesse pedido qualquer uma dessas coisas antes!)?
          - Que nunca faltou um dia sequer de trabalho sem avisar e nem nunca chegou depois do horário combinado?
          - Que está prestes a parar de trabalhar para você e, ao invés de dar só uma limpadinha na casa, aproveita para faxinar do chão até o teto?
          - Que você viaja, na semana que vai ser a penúltima que ela trabalhará na sua casa, e, ao invés dela tirar a semana de folga, você chega de viagem e encontra sua casa cheirosa, suas cortinas e seus cobertores lavados e passados, seus sapatos arrumados e suas plantas floridas?
            "Só" isso? Não, tem coisa mais importante! ...
           - Que você teria coragem de deixar seu filho de 5 dias para sair para almoçar num restaurante?
          - Que é uma pessoa discreta, educada, paciente, e com discernimento suficiente a ponto de não lhe causar nenhum pouco de preocupação acerca da influencia dela na educação dos seus filhos? Pelo contrário! ... Que você ficaria no trabalho com a consciência em paz, sabendo que seus filhos estão com ela?
         Sim, sempre valorizei o trabalho e a pessoa que ela é. Mas tem uma coisa que percebi só semana passada, quando ela finalmente se mudou, foi embora, e eu passei um dia inteiro chorando...  Quando ela voltou, logo depois da perda da minha mãe, atribuí a ela um dos papéis que a minha mãe, que sempre foi uma dona de casa exemplar, exerceu na minha vida  até o momento em que eu me casei:

 

a de cuidar das minhas coisas desse jeito exigente e perfeito. A sensação que ficou? “E agora, quem vai cuidar de mim?” 
          Hoje faz uma semana que ela foi embora. Vendo as coisas aqui em casa, a sensação que tenho é que faz 1000 anos... 
          "Tia Helena", gratidão pelos mais de quatro anos aqui com a gente, e o desejo de que sua nova caminhada seja feliz... 

 

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