Chorando as pitangas...

            Semana difícil por aqui... Fim de semestre, muito trabalho, um tanto de tristeza.
         Semana de mudança. Mudança daquelas que já mudou tudo, mas que agora é que é a hora da ficha cair. 
         Ficha bem caída, daquelas que caem em cima da cabeça da gente e faz um galo bem doído.
         Interessante como a gente se engana com a importância que algumas coisas tem pra gente...
          Depois que a minha ma faleceu, meu pai não voltou mais para a casa deles. Fomos juntos, meu pai eu e meus irmãos, logo na segunda-feira (minha mãe morreu num sábado), juntar as coisas dela. Nossa, mas tão cedo? Sim, meu pai estava decidido a doar os pertences dela para uma Instituição, meu irmão estava voltado de viagem para a casa dele... Enfim, fomos juntos, fizemos uma prece, e demos um jeito em tudo... Bem menos sofrido do que eu imaginava. Entrar na casa, olhar o sofá da sala de TV onde minha mãe sempre ficava, pegar as roupas, os sapatos, tudo isso foi bem mais tranquilo do que eu poderia supor. A ficha não tinha caído ainda. Minha mãe não estava lá, e era “só” isso. A sensação era de resolver alguma coisa, para ver se tudo que estava dentro podia ser resolvido também. 
         Depois das coisas, foi a vez do cachorro. O cachorro era dela: ninguém além da minha mãe e do meu irmão gostava de bicho lá em casa. Confesso, encontrar um novo lar para o cachorro me causou um misto de alegria e alívio. Com filhos com alergia, ele foi um dos motivos que me fez reduzir a presença na casa dos meus pais nos últimos tempos: toda vez que eu ia lá os meninos voltavam mais catarrentos... Enfim, foi-se o cachorro, me deixando com a consciência tranquila de ter encontrado um ótimo novo lar. 
         Depois foi a vez das flores. Adoro plantas, mas não cuido, e claro, elas morrem. Conversei com a minha irmã, que gosta de plantas até mais que eu, mas que também não é lá muito cuidadosa: tinha uma pessoa querida, próxima, que minha mãe gostava bastante, e que cuida super bem das plantas que tem em casa: - "e aí, posso dar?" - "Ok!" Era consenso que não queríamos deixar as plantas morrerem, mas que também não queríamos cuidar delas. Marcamos um dia, separamos e doamos as plantas da minha mãe. 
         Ops...! Percebemos, logo em seguida, o quanto a nossa decisão foi pouco cuidadosa. Magoamos meu pai. Não tínhamos pedido o seu consentimento. Eu pelo menos pensei: ele nem gosta de planta, e ainda está tendo o trabalho de ir lá jogar água! ... Não, ele nunca ligou para plantas, mas amava minha mãe, que amava as plantas dela... A gente não sabe mesmo o que é importante pro outro né!? Pois é, então é sempre melhor perguntar!
         E deve ter sido da mesma forma como ele se sentiu esse dia, que eu me senti semana passada. Liguei para a minha irmã, a noite, no intervalo do trabalho, e ela me comunica que a mudança lá da casa do meu pai estava marcada para o outro dia cedo. Sim, eu sabia que ele não voltaria para lá. Sabia que havia a possibilidade de negócio... Mas que o sofá, no outro dia, não estaria mais na sala, não, isso eu não sabia. E doeu. Não sei se teria doído mais ou menos se tivesse sido consultada. Sei que doeu.
         E as coisas foram seguindo... A possibilidade de troca do imóvel por outro, que atendesse melhor meu pai, existia. Racionalmente para mim isso estava super ok. Afinal, aquela era apenas uma das casas que eu já havia morado na vida. Uma das 7 casas. Era a que eu tinha morado um pouco mais de tempo, 10 dos meus 33 anos. Mas era só uma casa. 
         Considerando que nem meu pai, nem ninguém da família queria morar lá, meu senso de praticidade já tinha resolvido que dar um jeito na casa era o melhor... mas só ele. Meu coração, não. E ele chorou essa semana, quando tive que ir lá assinar os papéis para a troca do “IMÓVEL”. Fiquei, mal... mal-humorada, pesarosa, uma tristeza profunda tomou conta de mim.
         Não, não era só uma casa. Era um lugar de origem. Era a história de vários aniversários. De muitos Natais em família. De festas, de churrascos, de chás de bebê. De portas-retratos descombinados de toda a nossa família. Era a parreira de uva que veio da casa minha avó. Era o umbigo da sobrinha enterrado na roseira. Era o esconderijo das balas de goma. Era o balanço quebrado, o pé de jabuticaba, o pé de amora. Era a casa da vovó. Era a casa da minha mãe. 
          Fico por aqui, tentando parar de chorar as pitangas, as últimas do "nosso" quintal ... e treinando o desapego!

 

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