A beleza de vir primeiro ao mundo!

         Se você tem nos acompanhado por aqui já sabe que, da minha família de origem, eu sou a filha mais nova! Ah, por muito tempo fui pirraçada pelos meus irmãos mais velhos, que me diziam, para várias situações das quais eu não tinha feito parte: “ahahah, você não tinha nascido”. Nossa, quando eu era criança isso me irritava profundamente... ATÉ QUE... o tempo foi passando, passando, a gente envelhecendo, e a frase “ahaha, eu não tinha nascido” passou a ser minha, com o maior prazer! Rss...
          O fato é que, como irmã mais nova, não sei como é isso, de ser irmã mais velha, mas tenho por aqui uma filha mais velha, que é uma figurinha e me faz questionar, a cada dia, como sua relação com o irmão mais novo está sendo construída!... Ah, e isso em vários momentos: quando a vejo ensinar as coisas pro irmão; quando ele aprende imediatamente pelo exemplo dela, especialmente as coisas erradas, claro! Quando ela repete, para ele, as minhas expressões, acrescentando, obviamente, “maninha”, tipo: “maninha cuida”, “bonitinho da maninha”, “maninha ama”, “pitico da maninha”. Quando, vez ou outra, a vejo agindo com o irmão mais novo com uma autoridade que não sei se lhe pertence... E, ainda, quando ela pergunta, já com absoluta certeza da resposta: “mamãe, eu sou uma ótima irmã mais velha, né?!” 
          Pois é! Então, para ajudar a gente com esse assunto, pedi para uma amiga, aquela da família dos 6 filhos que eu contei no nosso post “Gravidez, 2 de uma vez?!”, como é ser irmã mais velha! E aí?! Com toda a propriedade sobre o assunto, Camila Ligeiro Medeiros compartilha conosco suas reflexões...

          "Esses dias estive com minha avó na casa da irmã mais velha dela, agora com 93 anos. Olhando para aquela senhorinha encantadora, eis que minha avó me pergunta: - Você imagina como é ser a irmã mais velha de 10?
          Sem respirar, respondi: - Imagino. Sou irmã mais velha de 6.
          É claro que vovó ficou bastante brava comigo e me criticou: - É… mais 10 é bem mais que 6!
          E eu, numa empáfia surpreendente, defendi meu posto, mesmo tendo ciência das leis da matemática: - Sim, vó, mas eu acho que não faz diferença. 6 ou 10 ou 3 ou 1… irmão mais velho é sempre irmão mais velho e o trabalho é o mesmo!
          Pronto, lá estava eu, metida a besta, falando sobre uma condição sobre a qual ela não poderia saber. E quem disse que eu sei alguma coisa?
          O fato é que depois desse episódio fiquei pensando sobre esse privilégio (ou não) da vida: ser o primogênito.
          A princípio só me vêm à cabeça as boas memórias: o nascimento de cada um dos meus irmãos (menos do primeiro, porque só temos 1 ano e 6 meses de diferença); o tempo passado com eles em inúmeras e inacabáveis travessuras; as vezes que eu entrava escondida no quarto dos pequenos e os acordava pra brincar; as tarefinhas de casa de cortar e colar e como eu adorava ensiná-los a pintar… enfim...aqueles momentos em que a saudade bate forte!
          Todavia, não deixo de pensar na responsabilidade que me foi atribuída em todos esses anos e que sempre carregarei comigo. Tudo bem que não a sinto de forma sufocante, como se meu mundo tivesse se dissolvido para que eu pudesse desempenhar meu papel de cuidadora, de braço direito do pai e da mãe, mas essa responsabilidade tem peso sim e sua influência na minha vida foi avassaladora.
          Eu cresci rápido. Desenvolvi um senso de dever para com minha família e um compromisso com os estudos que por pouco não custaram minha saúde. Tendo saído de casa cedo para estudar, senti a necessidade de ser exemplo para os demais que viriam atrás de mim. Sendo assim, fiquei por muito tempo centrada no objetivo de não falhar, de não poder demonstrar fraqueza e de alcançar meus objetivos para que eles tivessem em quem se mirar.
          Ora, coisa mais besta essa. Mas foi assim mesmo, hoje eu vejo. De alguma forma eu esqueci que meus irmãos tinham pais. Pais que foram meus exemplos e que já eram ótimos em demonstrar caminhos e apontar soluções.
          Mas é coisa de irmão mais velho emular os pais e querer educar os irmãos, hoje também vejo. Tanto eu quanto meu irmão subsequente -  também mais velho perante os demais - temos a necessidade de tentar passar o que aprendemos e de sermos aquela palavra amiga, aquele ombro presente para nossos irmãos mais novos.
          O problema é que o fazemos pautados na educação que recebemos, sem enxergarmos que nossos pais mudaram e que criaram os meninos (do segundo irmão pra baixo serão sempre meus pequeninos!) de outra forma, nem melhor nem pior, apenas diferente.
          No entanto, possuo privilégios que nem todo mundo tem. Tenho 5 irmãos que me acham superimportante (rá!!) e confiam em mim pra o que der e vier nessa vida. Hoje, um pouco mais desencanada dessa história de ser exemplo, consigo ver a beleza do caminho de cada um deles e acredito que meu papel seja meramente coadjuvante.
         Mas como é bom ser coadjuvante. E é nessas horas que não consigo me desfazer do argumento que usei com minha avó: irmão mais velho é irmão mais velho. Mesmo se tivesse apenas um irmão mais novo, ainda gostaria de dividir minha vida com ele e saber das experiências em seu caminho; gostaria de partilhar e abraçar e ajudar e aconselhar. E é nesse mar de inconsistências e incoerências que reside a beleza de vir primeiro ao mundo."

         Obrigada Camila, por aceitar nosso convite, pelo seu relato, por compartilhar com a gente a sua família, e por me dar mais ainda o que pensar sobre a relação da minha pitica com o irmão mais novo... e os outros, que por aqui ainda chegarão!!!

 

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