"Faça o que eu digo, não faça o que eu faço!"

   

       Não sei de onde vem esse ditado, mas sei de uma coisa: vivia ouvindo ele da minha mãe, e, desde muito pequena, pensava: “mas isso não faz sentido!” Não foram poucas as vezes que me recordo de questionar comportamentos dela: me ensinava que não podia dizer ou fazer alguma coisa, e lá estava ela, fazendo o contrário e... repetindo o ditado! 
      Quem tem o mínimo de convivência com crianças pode perceber que elas são criaturinhas-esponja! Sim, absorvem tudo, do que a gente faz, ao que a gente fala... E com isso nos mostram que não há espaço para incoerências, é ou não é verdade!? 
      Em casa percebemos isso sempre, mas dois episódios recentes me chamaram a atenção...
      Por aqui, acreditamos que as crianças precisam aprender a brincar sozinhas. Primeiro porque achamos que a criatividade delas pode ter mais espaço para se manifestar quando não estamos juntos o tempo todo, direcionando a brincadeira. Segundo, porque crianças têm energia inesgotável, e exigência de atenção constante, mas eu, apesar de gostar muito de brincar com meus filhos, como pessoa adulta, também tenho outras necessidades e interesses dentro de casa!
      Assim, procuramos estimular que eles consigam se entreter sozinhos, pelo menos um pouco. 
      O fato é que, esses dias, enquanto eu conversava com o marido, nossa filha, não parava de tentar chamar nossa atenção. Enquanto isso, nosso filho mais novo brincava no quarto. 
      Eu, depois de ter pedido algumas vezes para que ela esperasse um pouco, que estava tratando de um assunto importante com seu pai, disse: “filha, tadinho, seu irmão está lá no quarto, brincando sozinho, porque você não vai lá, brincar com ele?” Imediatamente a resposta: “MAS MAMÃE... (com aquela cara ótima, de superinterjeitção! Rss..) você não me explicou que a gente tem que aprender a brincar sozinho?”... ... ... E... ?! Rss...
      Outro dia, encontrei, na porta da escola, com a mãe de uma coleguinha, com ela no colo, aos prantos. Perguntei o que estava acontecendo, e ela me disse que não sabia direito, mas que a filha estava desconsolada porque minha pitica não tinha querido aceitar um papel que a amiga tentara lhe dar.
      Quando cheguei à escola, perguntei o que tinha acontecido, e a tia relatou que a colega tentou dar um papel para minha filha, e ela não quis pegar de jeito nenhum porque o papel estava rasgado! Que ela tinha tentado fazer com que elas chegassem num acordo, mas, nada feito! 
      Quando chegamos em casa fui conversar com minha filha. Tentei explicar para ela que a gente não precisa mesmo aceitar tudo o que as outras pessoas nos dão. MAS, que, em alguns casos, a gente podia aceitar. Que quando a gente gosta das pessoas, e elas querem que a gente faça algo que não é ruim, ou que não nos custa muito, a gente pode fazer, mesmo sem estar com muita vontade. Que ela, como gostava muito da amiga, poderia ter pegado o papel, colocado na mochila, e depois, quando chegasse em casa, jogado fora.  Expliquei, por exemplo, que tem horas que eu não quero brincar com ela, mas brinco, porque sei que ela vai ficar feliz, e eu também fico feliz por isso.... Que tem dias que o papai chega cansado do trabalho, que gostaria de deitar e dormir, mas, ainda assim, sai para passear com a gente, e gosta muito também! 
      Depois disso perguntei se ela tinha entendido, e se queria ligar para a colega para perguntar se ela estava bem, e dizer que gostava dela! Ela disse que sim, então ligamos e encerramos o assunto. Eis que, semana passada, entrando no carro para irmos para a casa da minha irmã, depois de um dia supercansativo de reunião no trabalho, e uma falta de paciência que me consumia, Helena me faz um pedido: “mamãe, conta uma historinha?” Minha resposta: “não filha, mamãe não quer contar história agora”... E antes que eu pudesse despejar meus argumentos ela questionou: “MAS MAMÃE, você não me explicou, aquele dia, que tem vezes que a gente faz as coisas pelos outros mesmo sem estar com muita vontade?” E... ... ... eu?! Me restou perguntar que historinha ela queria ouvir... Rss...
      Sim, ela tinha entendido tudo o que eu expliquei... Não, não tem forma melhor de ensinar as coisas (e não só para as crianças!) que não seja dando o exemplo!
      Resta-nos pensar que, pelo menos, na tentativa de “criarmos bons filhos”, temos motivos de sobra para buscarmos ser cada dia melhores! 

 

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