Não, eu não fui um bebê planejado!

         

       

         Sim, ouvi isso muitas vezes, da minha mãe, aqui em casa! Afinal... Já não era hora de ter mais um filho... Ela se julgava (ou achava que os outros a julgavam!) velha (35 anos! Rss...)... Minha irmã já tinha 12 anos, meu irmão 14, como ter um bebê, depois de tanto tempo?... Minha mãe tinha acabado de voltar a estudar... A situação financeira não estava das melhores... 
          Bom, tudo isso e lá estava eu, na barriga da minha mãe. 
          Esses dias mesmo, ouvi de uma amiga, quase irmã: “lembro direitinho da sua mãe parada aqui, nessa porta, com aquele barrigão, perguntando: quem vai cuidar dessa criança?”
          Talvez seja por isso que eu acredite ser tão importante planejar a vinda de um filho. 
          Fico, mesmo, entristecida, quando ouço umas mães por aí dizendo em tom de cobrança: “larguei tudo na minha vida para cuidar de você!” Poxa, a vida é feita de escolhas, não?! Quem escolheu ter o filho?... Ou pelo menos não se cuidou o suficiente para impedi-lo de vir? Quem largou o que e por que MESMO? 
          Ou quando ouço outras mães que dizem, ao se descobrirem grávidas: “ele é minha vida agora, não estou mais sozinha!” Será que esse papel, que essa mãe espera ser preenchido pelo filho, não é de outra pessoa não, hein?!
          Claro, pode haver complicações no caminho, de todos os tipos; mas quando, nessa vida, a gente tem garantia de não enfrentá-las? Isso é suficiente para jogar todo esse peso da NOSSA vida nas costas de um filho? 
          Não, nunca ouvi coisas desse tipo da minha mãe. Ela foi sempre muito bem resolvida sobre sua decisão de dedicação integral ao nosso lar. Eu posso não ter sido planejada, mas acredito, sim, ter sido muito querida, desde o princípio. 
          Mas isso não atenuou o impacto da falta de planejamento dos meus pais na minha história de vida. 
          Percebo, cada vez mais, o quanto a nossa história já é história, desde, NO MÍNIMO, o momento em que estamos na barriga. 
          Esses dias, conversando com o marido, ele perguntava como eu posso ter sido a criança tão boazinha que digo que fui, e hoje ser uma mulher tão rebelde! Rss... Até então, respondia pra ele que toda a minha obediência eu já tinha gastado em casa. Mas, pensando bem... Acho que, hoje, percebo um pouco melhor a resposta...
          Acho que o bom comportamento que sempre tive, tinha sim, toda a intenção de agradar a minha mãe. 
          Divagando, chego a pensar que sempre foi assim:
       - Minha mãe contava que teve vários inícios de aborto durante minha gestação, que ela não podia andar um quarteirão, que já passava mal: será que eu não queria desistir, já que estava “fora do esquema”?!
       - Meu parto: de 8 meses, rápido, antes mesmo de entrar na sala de cirurgia, minha mãe mesma me amparou... Afinal, pra que dar trabalho pra sair, já que nem mesmo queriam que eu estivesse lá? Além disso, era melhor sair, logo, antes que desistisse de vez, não?! 
        - Minha infância: não me lembro de dar birra, de teimar, de dar trabalho. Sempre fui quietinha, obediente... e outras coisas do tipo. 
        - Na escola, aahhh... lá eu precisava ser boa, a melhor! Me lembro da cara de orgulho da minha mãe quando fui escolhida para personagem principal na festinha de dia das mães do pré-primário, da sua mesma cara de orgulho quando fui  a noiva na festa junina, e também a oradora da turminha na formatura!
       - Notas: sempre as melhores! Não apenas as melhores que eu poderia ter, mas AS MELHORES! Sim, me lembro da minha mãe perguntando uma vez, numa prova que eu tinha tirado 9,8 em 10, se alguém tinha tirado uma nota maior! 
          Taí, comparação, outra coisa para reforçar que eu tinha que ser boa, afinal em muitas situações ouvi (e quem não!?) “a filha da vizinha é boazinha, age de determinada maneira”... Consequência: adolescente comportada (na medida do possível!) e resiliente, do tipo que ia sempre embora mais cedo de todas as festas, sem reclamar...
          - Vestibular: passei no primeiro. Me lembro até hoje que passei em décimo primeiro lugar... e me lembro de quem passou nos primeiros lugares... por quê? Talvez achasse que eu deveria estar lá, será que não?! 
          - Na faculdade, mesma coisa: aluna comprometida, notas boas, segundo lugar no mestrado, outro mestrado, o doutorado... mais alguma coisa?! Ai, por agora não! Rss...
        Resultado disso: algo ruim? Acho que de todo não! Rss... 
       Sim, competitividade se tornou um dos meus pontos fracos até hoje: detesto ser comparada com outras pessoas (independente da situação), isso ainda me tira muito do sério!  
         Além disso, muitas coisas que davam errado na minha vida, em algum momento, do tempo (uma nota ruim, um projeto que não deu certo, um concurso que não passei...) viravam uma frustração ENORME! 
        Mas também, tudo TINHA que dar certo, afinal, “só sendo boa o suficiente para merecer estar aqui, pois não fui planejada”... Ah, hoje tenho certeza que esse pensamento fazia parte do meu inconsciente!
         Planejamento? Tenho até demais, a ponto de ser inflexível em muitas ocasiões nas quais caberia deixar fluir... Será que isso não tem nenhuma relação com a minha concepção? Suspeito que sim.
        Mas, apesar de tudo isso - ou por conta também de tudo isso - sou satisfeita com a pessoa que tenho me tornado a cada dia, com a vida que levo; e compreendo muito que meus pais sempre conduziram as coisas do jeito que davam conta, da forma que acreditavam ser o melhor, pra eles, pra mim, pra nossa família. 
        Perceber tudo isso tem me ajudado um bocado a romper, pelo menos um pouco, com esses padrões de comportamento que eram mais fortes em mim: a obstinação, a necessidade de ser perfeita, de não poder errar nunca, de não ter, sobretudo, que ser uma mãe perfeita. 
        Mas independente de toda essa história (será?!), mais do que tudo, me orgulho, por aqui, dos meus filhos terem vindo a esse mundo no momento em que abri o meu corpo e a minha vida para recebê-los. No momento em que escolhi e, claro, me foi concedida a graça de gerá-los. 
        Garantia de uma boa maternidade? Claro que não! Mas com certeza uma mulher-mãe-esposa-pessoa-profissional muito mais bem resolvida, porque, pra mim, vejo a vida repleta de escolhas, e, mesmo quando não temos a oportunidade de fazê-las (ou pensamos assim) a responsabilidade de arcar com o resultado, creio eu, é toda nossa. Não é do filho, do marido, do vizinho, do amigo! 
          E quanto mais consciente essa responsabilidade se torna, mais eu me liberto das minhas feridas da infância, e mais condições tenho de libertar meus filhos para fazerem suas próprias escolhas...
          Lidar com as nossas próprias decisões muitas vezes já é pesado demais para que tenhamos que carregar nos ombros, também, as decisões dos nossos pais, não?! 
          Então:
1)    Que possamos nos abrir para a maternidade de forma consciente, acreditando (porque certeza acho que é difícil de ter né!?) que é isso o que efetivamente queremos!
2)    E, sempre, ainda que o item acima não tenha dado certo (rss...), possamos dar aos nossos filhos as melhores condições ao nosso alcance e todo amor, mas com a clareza de que a vida dos nossos filhos, ah, essa pertence a eles... Pois, afinal, ELES NÃO NOS PERTENCEM!
          Acredito que assim temos maiores possibilidades de ajudá-los em seu crescimento (enquanto eles precisarem)... e isso ainda nos permite ter mais discernimento para cuidarmos das nossas próprias vidas! 
          Fácil? Não, acho que não!! Rssss...   

 

(62 likes)

Please reload

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now